“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.”
"A alma é uma borboleta...
há um instante em que uma voz nos diz
que chegou o momento de uma grande metamorfose..."
“Ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar.
E o vemos então pela primeira vez.
Para isso caminhamos a vida inteira: para chegar ao lugar de onde partimos.
E, quando chegamos, é surpresa.
É como se nunca o tivéssemos visto.
Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros, olhos de velhice, de saudade.”
“Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.”
“O segredo do amor é a androgenia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.”
“Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco.
Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja a condenação final.
As vitórias se desfazem como castelos atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes.
Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá.”
“A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.”
Para todos aqueles que acham impossível entender a alma feminina, segue um desafio: um ano para conhecer uma mulher! Serão postados pensamentos, descrições de personalidades, crônicas, poesias, análises e analogias sobre o que fomos, o presente e o que queremos ser. Espero com isso, pelo olhar do meu anonimato, esclarecer inclusive para mim mesma, os segredos da mente e da alma feminina.
sábado, 8 de janeiro de 2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Tema de destaque 22 - Profissão Comentarista
Atualmente, existe especialista para tudo neste mundo. Hoje, além de nos dizermos como pessoa, quando descrevemos quem somos fazemos o detalhamento da nossa formação acadêmica ou referência à profissão. Uma especialidade para dizer quem somos e uma sub-especialidade parar fazer o diferencial. Com essa multiplicação de facetas da rotulagem, surgem juntamente as novas funções. Entre elas, a função comentarista. Tem comentarista para todas as coisas: esportes, moda, etiqueta, política, economia, sexo, meio ambiente. É uma lista infindável que cresce na mesma velocidade com que surgem os novos assuntos e modismos na mídia.
Contudo, há um comentarista negligenciado e que não consta nessa lista. É o cronista. Por que essa associação? Muito simples de responder. O cronista é aquela pessoa que comenta a vida como ela é. Não é especialista em nada, além da sua forma peculiar de olhar a vida e traduzi-la em palavras. Mas sabe de tudo um pouco e não tem reservas em mostrar o que pensa. Sua profissão se assemelha às práticas dos antigos filósofos.
Porém, uma diferença sutil e certeira distingue um do outro. O cronista fala para todos e não apenas para o público seleto dos teóricos eruditos e super esclarecidos. Além disso, não busca deixar um legado ideológico que seja capaz de descrever todas as pessoas em uma única teoria universal. Ele sabe que os termos enquadramento e pessoas não são compatíveis. Sua maior facilidade é comentar os fatos, quer se refiram aos anseios alheios quer estejam relacionados à sua própria individualidade.
Fica criada a profissão comentarista da vida. As regras básicas de seu exercício envolvem um toque de humor aqui, uma pitada de ironia ali... Um texto dramático, outro leve e cristalino. E assim, são compartilhadas reflexões expressadas por uma linguagem simples e ao mesmo tempo profunda sobre variados temas da realidade humana.
Deixam sua marca registrada: um quê de intimidade e acabam por completo com o tom professoral de quem acredita ser capaz de ter receitas prontas e eficazes para todos os males. Amenizam a sensação de tristeza que às vezes sentimos por vivenciarmos experiências ruins; a sensação de ter falhado de forma recorrente em algo que já não é novidade e que deveríamos superar; a sensação de nos sentirmos inferiores e falíveis quando olhamos ao redor e aparentemente enxergamos todos os outros bem encaixados, no seu devido lugar, menos nós.
Deverão estar aptos a conquistar a atenção do leitor pelo fato de instigarem sua auto-reflexão de maneira amena, sem rodeios, aguçando a sensibilidade dos sentidos. Em alguns casos conseguem despertar a verdadeira vontade de mudar e de perseguir sonhos. Em outros, se justificam apenas por despertarem a percepção de que a linguagem usada pelo mundo para escrever suas histórias pode ser decifrada, apreendida e internalizada.
Tudo que faz parte do cotidiano é material de pesquisa e inspira uma contextualização filosófica a respeito da vivência diária de cada ser. Basta olhar uma cena corriqueira na mesa do lado, assistir ao noticiário de um fato sem muita importância ou apenas acordar com a sensação de precisa dizer algo.
Vida, morte, maternidade, sexo, casamento, relacionamentos, preconceito e muitos outros, são temas recorrentemente explorados. O interessante é que cada novo texto imprime um olhar diferente, outro ponto de vista recheado das impressões de outra mente, que resulta de uma história em particular. A mágica desses profissionais é mostrar a seus leitores que eles não estão sozinhos numa multidão de perfeitinhos. Que não são os únicos a desmoronarem ou ficarem emocionados “apenas” porque se sentiram traídos, abandonados, rejeitados, felizes, realizados...
O cronista, ao contrário dos humanistas pragmáticos, não está atrás de respostas que sirvam para todos. Essa tentativa é uma falácia. Confesso que eu mesma já pensei que seria possível identificar algum tipo de lei universal que influenciasse a todos, concomitantemente. E que o resultado das nossas respostas aos estímulos recebidos deveriam ter uma origem similar. Pensei em ser minha própria cobaia, tal como tantas figuras usaram suas próprias impressões para descrever os efeitos psicotrópicos de entorpecentes ou caracterizar tipos psicológicos. Como estava enganada! Bastaram mais alguns anos de pouca experiência e percebi que, em se tratando de pessoas, nada é exatamente igual nem totalmente convergente. O padrão vigente é a individualidade.
É claro que alguns fatos imprimem sentimentos parecidos e que há traços de similaridades a até certo ponto. Por outro lado, a combinação das experiências, marcas e cicatrizes que cada um traz em si são como uma impressão digital. Embora existam os clichês todo fim tem um começo ou nada dura para sempre, sabemos que nenhum desfecho é igual e que as razões para se começar uma nova empreitada são as mais diversas possíveis. Cada qual tem seu gosto, sua essência, suas tendências que tornam sua alma única e insubstituível. Por isso, há tantos estilos e linguagens em voga para se falar uma mesma língua, para se contar um mesmo fato ou simplesmente para se dizer sinto muito.
Acredito que um dos segredos daqueles que têm intimidade com as palavras e impressões sobre a realidade, é a habilidade em enxergar os outros como eles são e saber explicar a essência daqueles com quem desfrutam de um convívio mais próximo. Detêm a vontade exagerada de sentir o outro e de se emocionar com a vida para depois dar suas próprias impressões dos fatos. Um cronista gosta de ver os acontecimentos com seus próprios olhos e descreve os eventos com sua sensibilidade exacerbada acerca da arte de sentir. Emerge do seu peito uma curiosidade faminta de descobrir o que está escrito nas entrelinhas. Raramente se abstém de proferir sua opinião, e quando fica em silêncio, sabe que no fundo, é a melhor coisa a fazer.
Então experimente um exercício simples, mas revelador. Olhe ao redor e tente visualizar uma cena que lhe impute algum tipo de sentimento. Exercite a criatividade e imagine os fatos e as implicações implícitas de todo o contexto. Tende descrever sua percepção e, se chegar a esse ponto da brincadeira, irá perceber que a cada linha escrita estarão incrustadas suas vivências pessoais. Em tudo que fazemos acabamos deixando uma pista do que somos. Um rastro do nosso passado e as expectativas que temos sobre o futuro.
Ao refletirmos sobre um episódio pessoal estamos exercitando a nossa capacidade de refletir e comentar sobre a vida. Não importa se a linguagem que usaremos é rebuscada ou simplória; por metáforas ou no discurso direto. Tudo é relativo, principalmente o tom do desfecho. O único alerta que faço é que, cada vez menos, as pessoas se sentem à vontade para encarar a realidade. Isso sim é a condição essencial para qualquer um que queira se atrever a interagir com o mundo. As recorrentes tentativas de fuga são também entorpecentes da alma que, com o tempo, minam todo o nosso potencial de ver, sentir, se emocionar e se fazer mais vivo.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Perto da família e do coração (por Andréa Naritza)
Estou de férias, perto da minha família e na minha cidade natal. Sempre que venho aqui, faço um pequeno ritual: visitar meus avós, olhar fotos, matar a saudade de sabores que só encontro aqui. Depois de um tempo, mesmo refazendo o ritual de sempre, observei que a minha percepção sobre as coisas e as pessoas foi modificando. Não foi apenas o meu amadurecimento que afetou as pespectivas, mas os fatos também mudaram.
É incrível como os hábitos acabam se tornando tradição quando repetidos sucessivamente. Mas quando a realidade muda e não podemos mais perpetuar o que se fez desde sempre, como devemos agir? Antes, existia uma regra, mesmo que tácita, que nos dava um rumo. E quando as circunstâncias mudam a ponto de nos obrigar a traçar as novas regras, como devemos fazer?
Há seis meses, perdi meu avô materno e sinto que os últimos dias também se aproximam para a minha avó. Restará apenas a minha avó paterna, já que o meu avô paterno já faleceu há muito tempo. E esse é o ponto. Percebo agora a importância dessas figuras para a perpetuação do ato de agregar a família. Desde que me entendo por gente, fazíamos a mesma trajetória para visitá-los no Natal e no Ano Novo. Vejo que, com a partida deles, a congregação familiar já não é a mesma.
Não estou aqui lamentando a partida de pessoas idosas que já cumpriram com a sua missão neste mundo. Só ressalto que a família à moda antiga conferia um pouco mais de união. Pode ser que a nostalgia tenha me invadido agora, mas sinto falta daqueles encontros calorosos e barulhentos, com todo mundo junto, na ceia ou apenas confraternizando os últimos momentos do ano. Visitar os avós era o que todo mundo pensava que seria o propósito do encontro. Contudo, imagino que todos nós sabíamos que aquela energia contagiante da família reunida era o que emocionava de fato.
Então, tenho a missão de continuar a cultivar esses encontros, mesmo que não sejam como antigamente. Afinal, tudo tem seu tempo. O que importa é a satisfação de rever as caras conhecidas e desejar feliz natal e feliz ano novo do fundo do coração, desejando verdadeiramente que essas pessoas possam desfrutar de momentos melhores. Não apenas por serem nossos familiares, mas principalmente por serem pessoas como nós que sempre buscam algo positivo da vida.
E que não seja preciso exercitar o afago apenas aos familiares. No percorrer do caminho surgem pessoas tão especiais que nos encantam e alegram os nossos dias, independentemente dos laços de sangue. Somos a família universal, sem divisão de guetos. Somos aqueles capazes de transformar o mundo por meio de pequenos atos de gentileza e união.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Tema de destaque 21 - Novos Tempos
Desde criança criei minha própria imagem especulativa de como seria a vida no século XXI. Comida em capsulas, transportes que flutuavam no ar, roupas de coloração metálica, cidades suspensas e por aí vai. Claro que fruto desse retrato caricato tem a ver com os alguns desenhos animados que passavam na época. Enfim, passadas quase três décadas desse lugar na minha memória, finalmente é chegada a realidade do futuro.
Embora algumas pessoas realmente se alimentem de um coquetel de capsulas a cada refeição, outras retornaram ao menu vegetariano de grãos germinados. As vestimentas seguem a ditadura da moda, então não há como estipular um padrão. Variam entre brilhos e tecidos naturais e dos tons multicoloridos ao nude. Os carros são bem dotados de mecânica, design e apetrechos ultramodernos, mas ainda andam sobre o chão. Aparelhos celulares multiuso, eletro eletrônicos para tudo e um pouco mais. Edificações mínimas e consumo máximo: essa é a cara dos tempos modernos. O cúmulo do exagero da saúde, da beleza, do individualismo, do ter. Mas também tem a economia excessiva; de palavras, de afeto, de entrega, de humanismo. Tenho a leve impressão de que com o passar dos anos a balança ficou obsoleta...
O ser humano não é mais o mesmo. Parece ter feito uma viagem inversa, tendo como destino obrigatório o lugar mais longe do seu interior. Vive as descobertas da engenharia genética, onde se declara ser possível reproduzir outra pessoa oriunda de duas fêmeas ou de dois machos. Fazemos tecnologia de ponta que nada perde e tudo transforma. Contudo, ainda não foi possível desenvolver o chip da felicidade. Algo capaz de dar sentido à vida das pessoas que se encontram desacreditadas de tudo e de todos.
A tudo isso, chamou-se desenvolvimento e progresso. A definição do alcance ao ponto mais alto na cadeia evolutiva da vida humana, até então. Por outro lado, percebe-se a predominância das relações superficiais, cibernéticas, virtuais. O sentido mais desenvolvido é o tato das pontas dos dedos que devem estar sensíveis aos teclados. E de todas as características daquela caricatura infantil, talvez, o ser humano seja quem mais se aproximou do estereótipo pensado. O homem de lata robotizado. O ser frio e calculista. Aquele que não entende a matemática de dar sem receber. Individualidade, competitividade e insensibilidade predominam como características marcantes.
Partindo da premissa filosófica que declara o homem como um ser social, faz-se a inferência de que a natureza humana está em meio a uma crise de esquizofrenia coletiva. Parece ter ocorrido uma inversão de referencial. Volta à tona a ótica de que o homem é o centro do universo. É certo que alguns aspectos práticos e de forma evoluíram. Descobriu-se que a Terra é redonda, que o horizonte não é o fim da linha e que os planetas giram em torno do sol. Contudo, as questões que envolvem a vivência em sociedade parecem estar mais confusas do que nunca. E agora? Essa pode ser uma angústia real? Será este o verdadeiro destino da humanidade: tender a viver só, sem credos e sem manifestar a sua essência social?
Para o meu bem e o de todos, uma aparição surreal trouxe alguns lampejos de resposta. No auge da minha divagação trágica, dei de cara com uma cena inusitada. Ao chegar a um seminário que tratava de assuntos do meu trabalho, revi um personagem que há quase dois anos me despertava inquietação. Observei detalhadamente o índio que anteriormente encontrava nas reuniões das instâncias de participação social. Vestia um terno escuro, com um belo corte e carregava um laptop numa bolsa lateral. Naquele instante não era mais o representante do controle social, mas sim um assessor direto do novo Secretário. Sentou-se e, em silêncio, lia calmamente seus e-mails antes de compor a mesa de abertura do evento. Apenas interrompia o que fazia para atender ao celular. Fiquei tão compenetrada com essa visão que pensei “é finito mesmo!”
Logo em seguida, anunciaram seu nome para compor a mesa de abertura do evento. Após todas as formalidades, para minha surpresa, o Secretário que conduzia os trabalhos, solicitou que o indígena evocasse uma prece para que os pactos ali celebrados fossem abençoados. Então, sem muita cerimônia, e depois de várias demonstrações de total desenvoltura, pegou o microfone e iniciou sua fala. Intitulou-se evangélico e chamou o nome de Deus. Aquilo sim foi de arrepiar. Cada palavra proferida, cada apelo encaminhado ao ser superior, mesmo que em um português dito em palavras trocadas, saia do fundo da alma. Dava pra sentir no tom de voz e na expressão do rosto que juntos, retratavam os sentimentos de quem segue em uma longa espera e agradece o encontro. Presenciei uma sabedoria profunda acerca da vida em sociedade. A passagem mais marcante do discurso enfatizava o pedido a Deus para iluminar a mente de todos que iriam assumir os trabalhos. Que tivessem sabedoria e a devida inspiração para cumprir com suas responsabilidades.
Fiquei com vergonha do meu pré-julgamento e pedi desculpas em silêncio. Primeiro, pelo preconceito; segundo, pelo julgamento e finalmente, por taxar uma pessoa pelo seu estereótipo. Afinal, qual é a diferença concreta entre pessoas desnudas com a cara lavada? Ao me redimir comigo mesma, deixei-me levar pelo pensamento. Pude perceber que, da mesma forma que as ondas de modernidade arrastaram consigo um futuro deserto, também favoreceram a construção de um contexto rico, multicultural e baseado no requinte da essência humana. Pude compreender que esses povos tradicionais precisam se adaptar para garantir sua inserção no mundo, e nós, os seres humanos da sociedade formal, carecemos urgentemente de redescobrir o humano dentro de nós. Quem sabe o encontro no meio do caminho não favorece aos dois tipos?
O velho e o novo. O de dentro e o de fora. Racional e sentimento. Divino e mundano. Moderno e obsoleto. Sociedade multifacetada e comunidade. Essas dobradinhas não representam duas caras da mesma moeda. Representam a complexidade que envolve a espécie humana e demais ramificações da cadeia da vida. Pude ver claramente que a ligação indígena com o divino é algo que vem de dentro. As pinturas no rosto e vestimentas rudimentares são apenas uma forma externa de criar um simbolismo próprio para mostrar o de humor ou uma passagem. Sinalizam o estado de guerra, de tristeza, de alegria ou de paz.
E não se dando por satisfeita, a vida trouxe mais uma de suas surpresas. Outro indígena encantou com seus dizeres. De cara falou sobre as características ancestrais da sua etnia, marcada pela postura de guerrear e de usar da força bruta para suas conquistas. Em seguida, demonstrou o aprendizado sobre a evolução do pensamento daquele grupo que agora prefere o diálogo. Mostrou o entendimento sobre a concepção do Estado Brasileiro de Direito e a essência da República Federativa Brasileira. Sabia do que estava falando e mostrou-se mais patriota do que qualquer um naquele auditório. Fiquei emocionada e completamente convencida da capacidade que o ser humano tem de se superar e de surpreender a si mesmo.
Por fim, a última pessoa a se pronunciar, recitou um trecho da música de Geraldo Vandré: Só pra não dizer que eu não falei das flores... “Vem vamos embora que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Senti aquele evento recheado de cânticos, de mensagens de esperança, de incitação ao diálogo e à construção compartilhada das políticas públicas como uma pausa no princípio da legalidade que rege a vida na Administração Pública. A ladainha que engessa e prende o agente público a fazer apenas o que está previsto na lei, pura e crua. Envolvimento emocional, nem pensar. Então, como ter tesão pelo que se faz? Para terminar o dia, dei uma pausa na minha própria racionalidade e pensei: “Deus, obrigada pela chance de presenciar mais um milagre da natureza!”
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Tema de destaque 20 - As pessoas
Final de ano; tempo de mais um balanço.
Pensar se me tornei aquilo que pretendia ser.
De medir se caminhei dois passos à frente ou de perceber se apenas fiquei parada no meio do caminho.
De responder a um chamado, ou simplesmente não pensar nem dizer nada.
Normalmente, é uma época que inspira o ato de contabilizar os ganhos tangíveis, palpáveis.
Mas também deixa no ar um convite à introspecção.
O despertar da sensibilidadereflexiva em sua forma mais ingênua.
E quem se atreve a embarcar nessa trajetória, descobre o verdadeiro presente que a vida gentilmente oferece a cada momento: as pessoas.
São elas que preenchem o vazio do mundo e tornam a existência humana um acontecimento imensurável.
Algo cheio de caminhos tortuosos e de algumas espetadas.
Mas também são elas que, de maneira incomparavelmente enriquecedora, transformam a alma do ser mais insesível ou menos conectado às necessidades alheias.
Cada ser que passa, deixa sua marca e, mesmo sem querer, ajuda os transeuntes a escreverem sua própria história.
Contribui para que cada um possa se construir com o passar dos tempos.
Oferece um sorriso, um abraço ou simplesmente um aperto de mãos.
Em algumas situações, ajuda o outro a levantar de um tropeço desequilibrado e vai embora.
Eu outras, provoca algumas lágrimas, volta e permanece até o fim.
São apenas detalhes irrelevantes.
Poeira ao vento...
Depois de um tempo se aprende a agradecer por cada um desses presentes, mesmo os inesperados, os avassaladores, os que apagam o chão e tiram o prumo de qualquer um.
Os que trazem embates, desafiam e abalam a auto-confiança.
Até aqueles que nos levam a testar os limites ao extremo.
É nessa caminhada onde apenas o caminhar em si e o fim dele é imperativo e previsível.
É nessa vivência imperfeita que é possível descobrir o imperceptível sobre a felicidade.
Primeiro, percebe-se que a felicidade é algo mais comclexo que o estado de alegria efêmero.
O momento vivido em migalhas de tempo que são devoradas por uma fome insaciável, por se acreditar que está condicionado a algo externo e excêntrico ao cotidiano.
Algo que depende de uma vontade desconhecida e incontrolável.
Percebe-se então o poder de transformação do tempo.
Ao amadurecer, tornam-se todos privilegiados por possuírem “olhos de ver e os ouvidos de ouvir”.
Tornam-se aqueles que não têm pressa, por terem certeza que sempre haverá novos encontros e, junto com eles, a oportunidade de vivenciar novos aprendizados.
Descobrem a cada dia outras formas de ver e de experimentar o mundo de dentro e o de fora.
São eles que estão atentos ao instante certo de interagir, receber e retribuir.
São eles, que no ato de entrega, acabam se tornando parte da vida de outras pessoas.
São eles, que por derradeiro, têm o privilégio de se materializar na mistura de todos em um só.
Revelar-se na própria imagem do universo.
Pensar se me tornei aquilo que pretendia ser.
De medir se caminhei dois passos à frente ou de perceber se apenas fiquei parada no meio do caminho.
De responder a um chamado, ou simplesmente não pensar nem dizer nada.
Normalmente, é uma época que inspira o ato de contabilizar os ganhos tangíveis, palpáveis.
Mas também deixa no ar um convite à introspecção.
O despertar da sensibilidadereflexiva em sua forma mais ingênua.
E quem se atreve a embarcar nessa trajetória, descobre o verdadeiro presente que a vida gentilmente oferece a cada momento: as pessoas.
São elas que preenchem o vazio do mundo e tornam a existência humana um acontecimento imensurável.
Algo cheio de caminhos tortuosos e de algumas espetadas.
Mas também são elas que, de maneira incomparavelmente enriquecedora, transformam a alma do ser mais insesível ou menos conectado às necessidades alheias.
Cada ser que passa, deixa sua marca e, mesmo sem querer, ajuda os transeuntes a escreverem sua própria história.
Contribui para que cada um possa se construir com o passar dos tempos.
Oferece um sorriso, um abraço ou simplesmente um aperto de mãos.
Em algumas situações, ajuda o outro a levantar de um tropeço desequilibrado e vai embora.
Eu outras, provoca algumas lágrimas, volta e permanece até o fim.
São apenas detalhes irrelevantes.
Poeira ao vento...
Depois de um tempo se aprende a agradecer por cada um desses presentes, mesmo os inesperados, os avassaladores, os que apagam o chão e tiram o prumo de qualquer um.
Os que trazem embates, desafiam e abalam a auto-confiança.
Até aqueles que nos levam a testar os limites ao extremo.
É nessa caminhada onde apenas o caminhar em si e o fim dele é imperativo e previsível.
É nessa vivência imperfeita que é possível descobrir o imperceptível sobre a felicidade.
Primeiro, percebe-se que a felicidade é algo mais comclexo que o estado de alegria efêmero.
O momento vivido em migalhas de tempo que são devoradas por uma fome insaciável, por se acreditar que está condicionado a algo externo e excêntrico ao cotidiano.
Algo que depende de uma vontade desconhecida e incontrolável.
Percebe-se então o poder de transformação do tempo.
Ao amadurecer, tornam-se todos privilegiados por possuírem “olhos de ver e os ouvidos de ouvir”.
Tornam-se aqueles que não têm pressa, por terem certeza que sempre haverá novos encontros e, junto com eles, a oportunidade de vivenciar novos aprendizados.
Descobrem a cada dia outras formas de ver e de experimentar o mundo de dentro e o de fora.
São eles que estão atentos ao instante certo de interagir, receber e retribuir.
São eles, que no ato de entrega, acabam se tornando parte da vida de outras pessoas.
São eles, que por derradeiro, têm o privilégio de se materializar na mistura de todos em um só.
Revelar-se na própria imagem do universo.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Sobre tempo e jabuticabas (por Rubem Alves)

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.
As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena!
Miss imperfeita (por Martha Medeiros)
Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram era que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram era que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.
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