"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Estou de Volta

Depois de tanto tempo consegui voltar a escrever.
Minha filha já nasceu e às vezes me permite ter momentos só meus.
Pensei que este dia não chegaria nunca. Exageros do sexo feminino!!!
Vou começar postando um mensagem de final de ano.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Tema de destaque 29 - Mente e alma feminina

Existem várias maneiras de se perceber uma mulher. Talvez, as mais difundidas sejam a de santa mãe e a de Amélia. Parecem ser as duas que mais evidenciam as características de santidade e acolhimento ao extremo, tanto destacadas como características do sexo feminino. As duas mostram o que historicamente se esperava do feminino: paciência e submissão.

Não podemos entender essa forma de pensar com a mente impregnada de maldade e preconceito. Também vale a pena experimentar a reflexão de como a imagem da mulher era compreendida pelos homens e por ela mesma. Antes mesmo de se consolidar uma identidade própria, como se vê na atualidade, já existiam diversas formas de expressão, representação e entendimento do feminino pelas próprias mulheres de cada época.

Mas quando se fala em mundo moderno e globalizado é possível dizer que até a imagem de mulher santa e dona Amélia não é mais a mesma. Traçando um perfil extremo e completamente contrário a essas figuras dos primórdios, surgem as mulheres de aço do século XXI. São as executivas que atuam com mão de ferro. Perfeccionistas, não casadas em sua maioria, não mães e famigeradas por se afirmarem no trabalho. São estigmatizadas por supostamente carregam uma pedra no coração.

Pensando de outra forma, sugiro que a melhor maneira de entender uma pessoa, qualquer que seja o sexo, é abandonando os estigmas. Deixemos de lado os conceitos impregnados de feminismo ou do machismo eterno e abramos nossas cabeças para compreender a mente das fêmeas que vivem inteiramente sob a ação de hormônios mil. Isso sim é um fator que merece um entendimento mais profundo.

Em cada uma de nós há um pouco de louca e uma pitada de santa. Vivemos uma batalha constante com nossos altos e baixos, com a nossa carência de afago, falta de proteção e necessidade de reconhecimento dos nossos potenciais.

Vivemos em ciclos constantes e em fases que nunca se acabam, acima de tudo, sob as influências de substâncias que nem sabemos o nome. E é nesse mosaico formado por várias faces e por diferentes eus que nos revelamos ao mundo.

Quando assumimos o papel de amante, desejamos ser a mais quente e aquela capaz de saciar todos os desejos do nosso objeto de amor. Mas por outro lado, brigamos com as culpas que nossas ancestrais gravaram nas nossas memórias. Devemos ser sensuais sem vulgaridade, dar prazer sem ser puta, insinuar de forma recatada.

Ao nos tornarmos mães, temos a missão de zelar pelas nossas crias e de estarmos dispostas a lutar como uma leoa, com unhas e dentes. Devemos saber alimentar, dar colo, educar e criar nossos filhos para a vida. Mesmo sabendo que eles saíram do nosso ventre, temos de nos convencer de que eles não nos pertencem. Tudo isso com muita calma, paciência e devoção.

A dona de casa deve prezar pela boa alimentação da família e ter uma casa acolhedora que minimamente retrate o que chamamos de lar. Deve ter respeito com aqueles que lhe prestam serviços, estabelecer as rotinas básicas da família e fazê-las funcionar. A rainha do lar deve rogar pela paz familiar e além de tudo ser uma mulher de verdade, prestando atenção em todos os detalhes para que tudo esteja em seu devido lugar.

No trabalho, a mulher profissional tem suas capacidades questionadas diariamente, mesmo que de forma implícita. Em alguns casos são tratadas com rivalidade simplesmente por serem extremamente dedicadas e competentes. Quando insistem em questões polêmicas, podem até ser alvo de preconceito. No fundo, apenas querem conciliar a alegria de ter o dever cumprido e poder ir pra casa desfrutar do ambiente familiar, quando ele existir.

Um dos papéis mais difíceis vivenciados pela mulher é nos relacionamos a dois. Além das dificuldades de entendimento da nossa própria natureza, precisamos desenvolver a habilidade de conhecer o outro, de lidar com sua forma de percepção do mundo, de saber negociar o que pode ser deixado de lado e o que é indispensável para o equilíbrio da relação.

E agora a parte mais complicada de todas: incorporar os diversos papéis e parir a camaleoa que habita o íntimo de cada uma de nós. Sem falar em todas essas regras e ensinamentos para uma vida saudável e feliz, ainda tem a influência hormonal que está impregnada na nossa própria definição. Uma mulher de fases, complicada e perfeitinha... É assim que nos somos.

Devido a tantas influências, somos uma metamorfose ambulante. Partimos de um extremo a outro e, em questão de segundos, escondemos o halo de santa e sacamos as garrinhas de bicho. Mas também falamos e pensamos em coisas doces e ternas. O nosso eterno romantismo nos despe das farsas das supermulheres. Somos frágeis e indefesas quando o assunto é amor e alimentamos sonhos infantis sobre a forma ideal de amar.

O que se passa na mente de uma mulher depende principalmente da fase em que ela está vivendo e é claro, da sua própria história de vida. Os traumas nos acompanham até o momento em que escolhemos dar um rumo diferente para as coisas. Mas a essência de uma mulher é algo que marca para toda a vida.

Na grande maioria das vezes em que alguém tenta descrever um ser do sexo feminino usa e abusa de inúmeros adjetivos, mistura defeitos com qualidades e acaba desenhando um ser ímpar, que faz toda a diferença. Ela deixa a sua marca como um perfume que se espalha no ar e deixa o rastro de um cheiro que logo se esvai... E mesmo que todas as faces estejam presentes, uma delas exerce o papel principal.

domingo, 12 de junho de 2011

Tema de destaque 28 - O trauma

Em se tratando de sentimentos, a maioria das pessoas tem uma opinião parecida. O coração é bobo, nele cabe todo mundo e é derretido feito manteiga. Compactuo dessa opinião em algumas situações. Tem horas que somos impacientes, implacáveis e completamente intransigentes. Mas em outros instantes, perdoamos setenta vezes sete se for necessário.

Então, como encontrar o meio termo? Como saber ser diferente de quente ou frio sem ser morno? Como saber se devemos ou não tentar mais uma vez? Afinal somos parte interessada. Seremos beneficiados se a suposta chance for segurada com unhas e dentes pelo suposto infrator das nossas normas. Também curtiremos momentos de extrema alegria se as linguagens individuais se ajustarem a um diálogo inteligível por dois.

Tenho um palpite a respeito. É uma pequena desconfiança que me dá uma luz nos momentos mais extremos. Suponho que seja difícil descobrir a linha do equilíbrio pelo fato de sermos temerosos dos nossos traumas. Não damos nada por eles, até duvidamos da sua existência, mas de vez em quando eles colocam as unhas de fora.

Gato escaldado tem medo de água fria não é mesmo? E até os mais afoitos se vem naqueles instantes de autocontrole extremado, completamente travados.

O maior medo de todos é o de sofrer. Reconhecemos a situação propícia pra perdermos o chão. Sentimos o cheiro do perigo de longe. Mas quem liga pra esses avisos. Eles podem estar equivocados... E mesmo que não estejam que diferença isso faz? Quando a gente acredita que qualquer sacrifício vale a pena, ninguém é capaz de nos deter, nem nós mesmos.

Segundo especialistas, a maioria dos nossos traumas tem sua estreia na infância, quando ainda somos indefesos e despidos da capacidade de discernimento entre o que é verdadeiramente marcante e o que pode ser deixado de lado, perdoado ou esquecido. Alguns deles são invenção da nossa mente, mas até descobrirmos que se tratavam de uma percepção distorcida da realidade, gastamos anos na terapia e nos afogamos em lágrimas desnecessárias.

Algumas pessoas ficam paralisadas em determinadas situações que as remetem ao trauma mãe. Outras ficam amargas e deixam de experimentar o perfume dos supostos melhores momentos da vida. Também existem aquelas que criam uma armadura de ferro ao seu redor, fria e inflexível, projetada para servir como proteção dos males dos sentimentos.

O processo de reconhecimento das saídas e das alternativas disponíveis para buscarmos a saúde mental e do coração parte do nosso próprio processo de crescimento pessoal. É claro que estar cercado por cuidados de quem nos ama é uma condição necessárias para  a superação das tristezas e dos medos, mas grande parte do esforço tem que vir de nós mesmos.

Além disso, para virar gente, todo mundo precisa ouvir um não bem dado, de receber limites, de correções de conduta, da proposição de regras que garantam o bom convívio coletivo. Mas o que vemos hoje é um exagero de dádivas para tapar buracos. Presentes que funcionam como compensações das ausências.

Olhando por uma perspectiva mais dura e cruel, podemos dizer que fica difícil pôr em prática a tentativa de ver o lado bom de certos acontecimentos. Aquele aprendizado que nos ensina a ser mais sábio pelo fato de fazer a opção de crescer com as perdas.

Mas como se explica isso a uma criança que sofre abusos ou àquela que é criada sem a chance de viver o seu lado lúdico infantil? Como se consegue pedir calma e paciência a alguém que tem a urgência de se ver liberto? Como se aprende essa lição sem aumentar os traumas do passado? Só me vem à mente uma resposta: por meio do amor.

Não é ele que move montanhas, que faz de nós seres maiores e capazes de vencer os momentos mais turbulentos? Não é ele que nos fortalece a alma e amacia os sentimentos nos encorajando a baixar a guarda e a viver o lado bom da vida? Não é ele que nos inspira a viver a dois e nos conduz a arriscar o compartilhamento de responsabilidades?

Sendo assim, dispo meu corpo e minha mente de todas as amarras que me prendem a um passado de sofrimentos. Encosto à janela e sinto o calor do sol a esquentar a minha pele e com ele, imagino que o amor me penetra pelos poros. Mentalizo uma luz vermelha e brilhante que me embala e me protege de mim mesma, que afasta dos meus pensamentos o medo de sofrer mais uma vez.

Agora já estou pronta para me atirar à vida novamente. Sendo que dessa vez não me vejo entrando em uma guerra de sobrevivência. Encaro o momento como uma batalha interior para o refazimento de meus conceitos, da minha essência, do meu eu.

Se em algum dia pretendo tornar-me nobre, que o processo de transformação comece agora e dessa maneira. Que se abram todas as pétalas para que eu deixe partir tudo o que não me pertence, tudo o que me diminui e tudo aquilo que me faz refém.

E que os traumas que um dia me afligiram o peito sejam apenas um sinal de alerta sobre as pedras do caminho. Contudo, que percam todas as forças que antes tinham o poder de anuviar minha vista, de causar tensão e de paralisar os meus passos errantes.

Filhos - por Jose Saramargo

Devemos criar os filhos para o mundo. Torná-los autônomos, libertos, até de nossas ordens. A partir de certa idade, só valem conselhos. Especialistas ensinaram-nos a acreditar que só esta postura torna adulto aquele bebê que um dia levamos na barriga. E a maioria de nós pais acredita e tenta fazer isso. O que não nos impede de sofrer quando fazem escolhas diferentes daquelas que gostaríamos ou quando eles próprios sofrem pelas escolhas que recomendamos.

Então, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.

Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo! Então, de quem são nossos filhos? Eu acredito que são de Deus, mas com respeito aos ateus digamos que são deles próprios, donos de suas vidas, porém, um tempo precisaram ser dependentes dos pais para crescerem, biológica, sociológica, psicológica e emocionalmente.

E o meu sentimento, a minha dedicação, o meu investimento? Não deveriam retornar em sorrisos, orgulho, netos e amparo na velhice? Pensar assim é entender os filhos como nossos e eles, não se esqueçam, são do mundo! Volto para casa ao fim do plantão, início de férias, mais tempo para os filhos, olho meus pequenos pimpolhos e penso como seria bom se não fossem apenas empréstimo! Mas é. Eles são do mundo. O problema é que meu coração já é deles.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tema de destaque 27 - Eu não sou de ninguém

Sempre vivi uma independência torta e desde criança não cultivava o hábito de andar em grupinhos. Cheguei a cogitar que isso era algum tipo de problema. Não pertencia a nenhum deles especificamente, mas circulava entre todos e ficava bem assim. Na adolescência, isso era mais perceptível e os grupos representavam os diferentes guetos da escola. As patricinhas, os descolados, os “Nerds”, os populares, os esportistas, os riquinhos, os estranhos que ficavam de escanteio...

Percebi que não tinha preferência por circular em nenhum deles. Não que eu não sentisse os anseios que afligem a maioria dos jovens. É que eu me sentia bem em ser livre; ser de todos e ao mesmo tempo não pertencer a ninguém. A minha lealdade estava afinada com o senso de justiça e só. Não era nada calculado. Apenas acontecia assim e só percebi isso depois que o tempo passou. Foi um encaminhamento espontâneo.

Lembro que não gostava da frescura das patricinhas, não concordava com o ar esnobe dos riquinhos, não me atrevia a experimentar metade das coisas que os descolados faziam e me sentia popular com todos com quem me relacionava. Além disso, a criação que recebia em casa me mostrou uma forma consciente de encarar a vida e as pessoas, inclusive de encarar períodos de privações, crises e adversidades.

Agora é possível entender que estávamos sendo preparados para encarar a vida como ela é. Claro que maturidade não dá em árvore e que às vezes é algo muito difícil para um adolescente vivenciar. Dói mesmo! Mas depois que os turbilhões passam, vale a pena pagar o preço. Percebo que na infância era constantemente desafiada a me portar como uma adolescente e quando me tornei adolescente tinha que responder como uma adulta.

Não segui nenhum tipo de doutrina, foi a necessidade mesmo. Vivenciamos muitas dificuldades compartilhadas com toda a família e isso demandava compreensão por parte de todos, até do mais novo. Nada era omitido e todas as responsabilidades diárias eram divididas. A casa era de todos e precisava funcionar independente das queixas e lamentações individuais de cada um de nós.

Aprendi a passar, cozinhar, cuidar de criança, de jardim e de cachorros. E não vejo esse processo como um curso de imersão na formação de Amélias. Encarei o aprendizado como uma experiência indispensável para dar conta de gerenciar uma casa e, consequentemente, de uma cuidar de uma família.

Não sei se essa é a receita ideal para formar indivíduos, mas confesso que hoje em dia valorizo o esforço dos meus pais em terem nos ensinado assim. Também agradeço aos meus irmãos pelo companheirismo de sempre, que ajudou a superar os tempos difíceis e aprender a dividir o peso das responsabilidades com outras pessoas.

Recentemente, percebi-me em uma situação que despertou a curiosidade sobre o assunto do início. Uma colega de trabalho me questionou de forma muito sentida porque eu não havia convidado ela para lanchar! Que cena dramática! Fiquei tocada, é verdade. Tanto que refleti a respeito. O engraçado é que não pensei a respeito da falta do convite, mas sim sobre os aprendizados mais tenros.

Imediatamente lembrei-me das frases recorrentes da minha mãe que repetia a minha avó. Ensinava que não deveria fazer o que todo mundo faz, só por fazer. Dizia que os modismos passavam e que as pessoas deveriam aceitar as outras como elas são e não pela aparência ou posses. Pregava valores cristãos e impregnados do senso comum de cidadania, mostrando que só devemos fazer ao outro aquilo que desejamos para nós. Ela era a dona da verdade em carne e osso.

Cresci impregnada com essa essência. E, certa vez, no calor das discussões sobre política e economia com meu pai, fui taxada de comunista. Foi uma cena muito hilária de se ver. Ele, completamente da direita e eu, com aquele discurso de defesa dos mais fracos e oprimidos. Foi uma comédia. Retruquei com ar de provocação. Disse que se tivesse nascido na época de caça às bruxas ou das lutas comunistas, provavelmente acabaria queimada em praça pública ou brigando por um país mais justo e inclusivo. Atualmente, faço isso de outras formas. 

Ao revelar esses pensamentos compreendo que os ensinamentos, do tipo lugar comum para quem vê de fora, foram essenciais à minha sobrevivência, bem como para que eu deixasse aflorar a minha personalidade assim como ela é.

Enquanto algumas pessoas valorizam o superficial e as relações descartáveis, escolho a vivência mais íntima e profunda. Adoro apreciar o belo e as novidades, mas não desperdiço a experiência disfarçada na figura de um ser idoso. Gosto de desafios e não me recuso a seguir o fluxo da vida, qualquer que seja.

Em situações difíceis, confesso que me dou ao direito de chorar, de ser frágil, de pedir colo e de reconhecer como sou pequenina. Não adianta estar disposta a encarar as adversidades e me largar em uma onda turbulenta sem ter os preparos devidos. Viver assim seria completamente insano e imprudente. E então, ao invés de me fazer fraca, como muitos pensam, eu renovo a minha crença em mim mesma e encontro a força necessária para dar saltos.

Entre um erro e um acerto, um susto e uma boa surpresa, um gosto novo e o saborear do nostálgico, a gente vai descortinando uma vida cheia de emoções e de significados. Situações e eventos que nos moldam e que, se bem aproveitados, fazem a diferença na consumação da realização pessoal ou em família.
Não somos apenas pessoas nascidas para povoar o mundo. Viemos aqui para fazer a diferença e isso significa nos questionarmos constantemente a respeito do que temos feito com os nossos talentos. Enterrá-los ou desenvolvê-los e compartilhá-los; eis a questão?

Gente Humilde - Composição de Garoto, Chico Buarque e Vinícius de Moraes



Tem certos dias

Em que eu penso em minha gente

E sinto assim

Todo o meu peito se apertar

Porque parece

Que acontece de repente

Como um desejo de eu viver

Sem me notar

Igual a tudo

Quando eu passo no subúrbio

Eu muito bem

Vindo de trem de algum lugar

E aí me dá

Como uma inveja dessa gente

Que vai em frente

Sem nem ter com quem contar

São casas simples

Com cadeiras na calçada

E na fachada

Escrito em cima que é um lar

Pela varanda

Flores tristes e baldias

Como a alegria

Que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza

No meu peito

Feito um despeito

De eu não ter como lutar

E eu que não creio

Peço a Deus por minha gente

É gente humilde

Que vontade de chorar

Tema de destaque 26 - Férias em família

Aquela visão mais parecia a própria manifestação do Apocalipse. O sol quente na cabeça, quatro crianças pequenas gritando no pé do ouvido, uma pequena aglomeração de idosos, uma gestante, duas sogras, um sogro, uma cunhada, duas irmãs com os respectivos maridos e o sangue à flor da pele é claro!
Depois de alguns dias convivendo continuamente com 13 membros da mesma família, a chegada a um parque temático da Disney, inteiramente lotado, só poderia se assemelhar a uma cena do fim do mundo. Para completar, um feriado prolongado fazia a multidão se multiplicar por dois, ou até três!
Nunca pensei que esse tipo de passeio desse tanto trabalho. Só pensava em férias, sombra e água fresca, acordar preguiçosa e sem saber qual era o dia da semana. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Os dias começavam já na noite anterior, quando as mochilas das crianças eram cuidadosamente arrumadas. Uma muda de roupa, o lanche nutritivo e o gostoso, água, fralda para o bebê, um brinquedo para distrair nos momentos de tédio, agasalho, documentos e tudo aquilo que uma mãe precavida possa julgar necessário.
Ao amanhecer, o despertador tocava e todos corriam em uma determinada direção. Depois de duas noites, o despertar já não ocorria de imediato e uma preguiça teimava em atrasar a turma. Quando conseguíamos ficar prontos, secávamos o suor do rosto e seguíamos em direção aos carros.
Os três motoristas checavam as baterias dos seus apetrechos de navegação e atualizavam os novos endereços no GPS. Já tínhamos baixado os mapas de toda a região e assim, conseguíamos chegar a qualquer destino. Bastava escolher: rota mais rápida ou mais curta. Eu amo a tecnologia, não sei como estar antenada a todas as novidades que surgem, mas reconheço que a criatividade do ser humano é capaz de mover montanhas.
A chegada ao parque era sempre uma alegria. Foto daqui, foto dali e muitos sorrisos. De todas as caras alegres que cruzavam o meu olhar, preferia admirar o encantamento escancarado nos olhos virgens das crianças que só conheciam aquela realidade pela televisão. Era uma expressão mais linda que a outra.
Terminado o romantismo, vamos à realidade. Imaginem só a loucura de reunir esse povo todo naquela imensidão! Ai, ai, ai... Era esquecimento disso ou daquilo. Quando o pé de um parava de doer o grupo esperava o outro ir fazer xixi. Perde daqui, acha dali. E a fome. Nossa, quando essa aí chegava era melhor ninguém se olhar muito porque saía faísca. Só perdia para a espera incansável de 90 minutos na fila de uma atração. E no fim dor nas costas, nos pés, na cabeça, nas juntas...
E assim foi. Os dias passaram, a semana chegou ao último ponto e mesmo com todas as verdades que foram ditas em tom de irritação, o que ficou de lembrança foi o sentimento de congregação. O aprendizado foi para todos. As crianças observaram as limitações com os idosos que, por sua vez, lembraram o tempo em que cuidavam dos seus pequenos.
Mesmo com todas as piadas que contam sobre os problemas que surgem quando se vive em família, algumas até em tom de ironia e sarcasmo, só posso dizer que para mim predomina a alegria de compartilhar meus momentos felizes e infelizes com pessoas muito queridas. E quanto maior ela for maior, sabemos que maior será o barulho, os atropelos, as confusões e até a efervescência da falta de paciência. Mas o que fica desses tempos de turbulência boa não tem preço.
Quando penso na minha família, a primeira coisa que se destaca é a nostalgia dos tempos de infância na casa da minha avó. Foi uma época tão boa que não dá para esquecer nem fingir que não aconteceu. Só de sentir alguns cheiros e aromas, lembro o sabor da comida caseira feita na hora e servida para todos numa mesa sem fim.
Outra boa lembrança é sobre o convívio com meus primos. Alternávamos as férias entre uma casa e outra e ficávamos sempre juntos. Passávamos horas jogando “War”, brincando na rua ou na praia quase deserta. Foram bons tempos aqueles. Tão bons que deixaram o sabor de quero mais, o desejo de se reencontrar para mais um papo e saber como a vida anda.
Só sabe a falta que a família faz quem já perdeu a sua ou quem nunca viveu sob o teto de uma. Existem exceções para tudo, mas sobre esse assunto, creio que no fundo, todo mundo gosta de saber que tem um ninho, um porto seguro entre os seus para correr nos momentos de crise e para celebrar as alegrias.
Imagino que esse tenha sido o sucesso da nossa viagem em família. Deixamos os laços de respeito e os sentimentos de bem querer se sobreporem aos desagastes que todo ser humano enfrenta no dia a dia. Agora só preciso de férias dessas férias para voltar ao gás de sempre.