"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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sábado, 11 de dezembro de 2010

Sobre tempo e jabuticabas (por Rubem Alves)


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.


Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.

As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Não tolero gabolices.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.

Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana;

que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena!

Miss imperfeita (por Martha Medeiros)

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram era que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.

Eu te amo não diz tudo (por Arnaldo Jabor)

O cara diz que te ama, então tá!

Ele te ama.
Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.
Mas ouvir que é amado é uma coisa...
Sentir-se amado é outra... Uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você quando for preciso.
Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou há dois anos, é vê-la tentar reconciliar você com o seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo tempestade em copo d água.
Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão...
Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta: EU TE AMO NÃO DIZ TUDO!
“Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso”.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tema de destaque 19 - Sessenta segundos

Estava findando mais um dia comum. Era um feriado e nada mais trivial do que visitar parentes e terminar o dia confraternizando com a família. Nenhum compromisso com hora marcada. Fim de tarde. Um resto de chuva molhando o chão. Ao fundo, uma trilha sonora de MPB, como de costume. Tudo na santa paz, a não ser pelo ônibus que vinha logo atrás, com todo gás. Bastou um ponto cego no retrovisor e o que parecia mais um dia igual a todos os outros quase se transformou em uma tragédia. Criança morre esmagada por um ônibus seria a notícia. A criança de 3 anos que estava no banco de trás acabou absorvendo todo o impacto da colisão e não resistiu. Tudo culpa da mãe, que estava distraída e cega. O tal ponto cego. Sessenta segundos. Foi o tempo necessário para o ônibus desviar sua rota e sumir de vista.

Quando tudo aparentemente se acalmou, seu coração disparou e ela ficou paralisada. De repente, sua vida inteira passou pela mente como um filme acelerado. Pensou em todos que amava. Em todas as pessoas que se revelaram importantes para sua formação como pessoa. Lembrou de fatos relevantes e de outros sem muita importância. Lembrou também que um dia tinha feito a promessa a si mesma de que estaria sempre com a malinha pronta, caso a morte chegasse de supetão. Estaria quite com as pessoas que já passaram e com aquelas recém chegadas à sua vida. Acreditava que dessa forma estaria sempre em paz.

Quanta inocência... Naquele instante, deu-se conta de que não é tão fácil assim ter paz de espírito. Muito menos estar quite com o mundo. Ao mesmo tempo, seus dois lados, a banda podre e a sã, não paravam de tagarelar em seu ouvido. Faziam questão de apontar seu passado. Os feitos bons e os ruins. Cada qual com o enfoque cabível aos respectivos pontos de vista: pessimista e otimista. Então, pra botar ordem no galinheiro, deu a vez da palavra a cada uma das vozes. Preparou-se para o bombardeio, desarmada e entregue.

O primeiro lado a se pronunciar foi sua sombra. Toda cheia de si fez questão de armar o julgamento final. Tinha juiz, promotor, ré, menos o advogado de defesa. Pela maneira como conduziu as coisas, já tinha a resposta da decisão final: culpada sem chance de recursos. As leis eram claras. Os dez mandamentos, os sete pecados capitais, e tantas outras que caracterizam a conduta do ser virtuoso. Então, buscando se redimir com seu lado mais cruel, não via outra saída a não ser confessar seus próprios pecados. Então, a mulher imaginou-se de joelhos e proferiu a seguinte prece:

“Senhor, eu pequei. Quebrei todas as regras. Não honrei meu pai nem minha mãe como deveria, como eles mereciam, por todo o esforço que tiveram na minha criação. Passei de todos os limites que algum dia me impuseram. Infelizmente não consegui adorar a Ti sobre todas as coisas; sou mundana. Perdi o número de vezes que evoquei Teu santo nome em vão. Nunca fui casta nos pensamentos nem nos desejos, menti, furtei, enganei, cobicei a vida do próximo e em quase todos os episódios que me lembro, não fiz com o outro aquilo que gostaria que fizesse comigo. Sei que muitos desses episódios aconteceram em idade tenra, mas eu sabia o que estava fazendo. Fui egoísta e sei que não adianta usar o instinto de sobrevivência como desculpa, porque não havia nenhuma arma apontada para o meu pescoço. Tomei as decisões em função dos meus impulsos mesmo e não por coação ou medo de perder a minha vida. Não matei, mas fiz pessoas sofrerem e às vezes, sofrer dói mais que morrer. Então, estou ferrada mesmo. Em alguns momentos de depressão deixei-me invadir pela falta de fé e vaguei pela vida sem sentido. Cometi o pecado da gula, o da vaidade e o da ira. Já senti inveja, orgulho e muita preguiça. Em alguns momentos também me deixei levar pela luxúria. Não tem desculpa para tudo isso, eu sei. Minha sombra está coberta de razão. Preciso pagar por todos os erros cometidos. Sei que não sou digna de perdão nem de piedade. Sou assim mesmo, um ser pequeno, com vontades menores ainda. Não amadureci tanto quanto deveria. Não cumpri com todos os compromissos que acordei. Falhei na minha formação como pessoa e percebo que também falho na criação do meu filho de apenas 3 anos. São grandes deslizes... Pode deixar, eu mesma puxo o gatilho e me aniquilo definitivamente da face da Terra e de todos os outros planetas e dimensões. Fiz tudo errado e mereço a pena. Olho por olho, dente por dente.”

Depois de toda a confissão feita, entra em cena seu lado iluminado. Apesar de todos os erros cometidos, as virtudes continuam lá, latentes, mesmo que não sejam acessadas adequadamente. Todo mundo nasce com algum talento. E a luz sempre aparece principalmente para quem tem a certeza que ela existe. Então, com toda a calma peculiar aos que detêm a sobriedade, sua voz interior entoou a seguinte oração:

“Senhor, sei que cometi muitos erros, mas em todas as situações, desejei do fundo do meu coração ter feito a coisa mais acertada. Foram muitas tentativas frustradas, mas nunca perdi a fé por completo. Sempre que cheguei ao fundo do poço lembrei-me da Tua existência e pedi forças pra continuar seguindo em frente. E não posso negar que sempre fui atendida. Lembro-me dos dias que acordei transbordando de alegria e com novos sonhos a perseguir. Em algumas situações, quebrei as regras para não ser hipócrita, não por completo. Não podia fingir ser algo diferente daquilo que queimava por dentro. Durante algum tempo, eu era uma contradição ambulante, mas busquei o significado das coisas. Sei que nesse caminho, às vezes me desviei, concordo plenamente. Mas, por outro lado, sempre tentei estar de coração aberto, entregue aos aprendizados da vida. Mesmo nos instantes de puro egoísmo, nos quais me entreguei aos meus desejos mais mesquinhos, no fundo, fiz a tentativa de reforma íntima. Alguns desses erros, eu não cometo mais... Já é algum progresso concorda? Tenho consciência que sou um ser em formação, que tem algo a aprender até o último suspiro de vida. Busco ser amorosa e ajudar as outras pessoas a não passarem pelas mesmas dificuldades pelas quais tive que passar, para não serem violadas, nem desconectadas de si mesmas. Tento a cada dia, reconhecer o amor que recebi dos meus pais, proporcionando a eles momentos felizes em família. Escolhi trabalhar em uma área que me faz focar o olhar sobre pessoas vulneráveis, frágeis, que precisam de humanismo para conseguirem reverter sua condição de desigualdade. Aonde quer que vá, levo o meu coração comigo e prego a gentileza e a esperança como uma bênçãos preciosas e indispensáveis para se viver neste mundo. E acima de tudo, reconheço que posso melhorar em pequenas gotas. Sei que errei, mas não desisti de tentar acertar. Por isso, peço perdão e não prometo nada. Apenas reafirmo a minha condição de aprendiz e me coloco humildemente a semear amor em meio a tantas adversidades da vida. Não quero com isso diminuir a minha responsabilidade sobre os meus atos. Espero apenas um pouco de indulgência e de credibilidade para essa almazinha que não quer ser feliz sozinha. Coloco-me em Tuas mãos e continuo a pedir forças e intuição para seguir o caminho da luz. Mais uma vez, muito obrigada pela paciência e até a próxima.”

Após ouvir atentamente ambas as partes, a mulher recolheu-se em sua pequenez e refletiu sobre o fato. Aquele quase incidente representava um aviso. Só depois dos instantes de pânico isso foi perceptível. Pontos críticos; são esses os empurrões que os dedos da vida gentilmente concedem aos pobres mortais para continuarem no caminho. Às vezes, são sentidos de forma mais intensa, em outras, leves como uma pluma.

Não há como se estabelecer relativismos entre as escalas de medição do universo astral e o terreno. Por isso, o que são 60 segundos? Podem representar um quase acontecimento, um fato que marque o resto da vida ou mesmo o rebobinar de 30 anos de história. Portanto, o foco não é o número em si, nem o que sua escala de mensuração abrange. É simplesmente o significado maior do que foi vivido. O abrir das cortinas deixando os feixes de luz entrarem e iluminarem a mente por completo. Não faz tanta diferença se para isso, alguns casos requerem quase todo tempo do mundo. O que importa é se esbaldar com o brilho eterno de todas as lembranças sãs. De tudo o que se foi e de tudo aquilo que ainda está por vir.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tema de destaque 18 - Amor sem preconceitos

Uma forma saudável e construtiva de exercitar a percepção sobre os acontecimentos da vida é olhar o passado com outros olhos, em outro tempo e com outra bagagem. É assim que se faz para analisar períodos históricos e o próprio curso da humanidade. Então, por que não adotar essa prática para ampliar a introspecção acerca do universo particular de cada um de nós? O filme Philadélphia, estrelado por Tom Hanks e lançado em 1993, oferece uma grande oportunidade para o exercício da reflexão acerca do tema preconceito, principalmente com relação à AIDS e ao homossexualismo.

Embora essas duas palavras retratem um contexto da atualidade, e mesmo que a sociedade tenha evoluído significativamente a forma de lidar com elas nos últimos 15 anos, ainda refletem uma tendência ancestral do ser humano de condenar os diferentes, de não querer correr riscos, de julgar condutas alheias segundo suas próprias referências, de desqualificar os supostos transgressores e atirar pedras. A diferença é que nos primórdios as pedras eram de verdade, machucavam fisicamente e até levavam o condenado à morte. Mas agora, também assumem novos formatos e resultam em efeitos mais dolorosos.

Mesmo sabendo que esse comportamento acompanha a natureza humana a perder de vista, é questionável o fato de alguém sentir qualquer tipo de prazer em diminuir o outro ou de aniquilá-lo como pessoa. Não estou falando de inimigo de uma guerra, onde prevalece o lema matar ou morrer. Refiro-me a aquele cidadão comum que compartilha algum espaço físico com um grupo de pessoas ou até um familiar mais distante e em casos mais extremos alguém que concebemos. De que forma esse outro interfere negativamente na vida alheia?

Esse comportamento de perseguição às bruxas deixa no ar a sensação de que essas pessoas acreditam que fizeram a coisa certa ao puxar o tapete de alguém que já vive um eterno conflito interior. É o sentimento de missão cumprida, como se tivesse sido escolhido a dedo para realizar algo indelegável e intransferível; de importância incalculável para o progresso da humanidade. Em alguns casos é como chutar um bicho morto. Talvez, ao atirarem as pedras, essas pessoas devam, erroneamente, exorcizarem seus próprios demônios. Quem sabe a psicologia possa explicar isso, por meio das teorias que falam das projeções do indivíduo nas outras pessoas. Deve ter alguma racionalidade mesmo que irracional capaz de apontar razões para essas tendências.

Algo de destaque no filme foi o preconceito contundente em relação à homossexualidade. Foi mostrado que as pessoas que adquirem a AIDS por razões entendidas como incontroláveis, tal como a transfusão de sangue, são menos hostilizadas e até dignas de condescendência. Coitadinhas, são vítimas de uma fatalidade. E o homo, principalmente o macho gay, buscou o que merecia. Que pensamento medíocre! Não se deve diminuir a decepção que um hemofílico contaminado contra sua vontade possa ter em relação à vida. Mas será que a vida de um indivíduo vale menos que a de outros por não se enquadrar no modelo preconizado por aqueles que se julgam acima do bem e do mal? Os auto-intitulados deuses do universo? Pessoas são pessoas em quaisquer circunstâncias.

É claro que existem situações que causam medo, principalmente aquelas desconhecidas e inesperadas. Mas isso não é argumento suficiente para desqualificar alguém e classificá-lo como um ser inferior, ou até mesmo como uma aberração. E, além disso, ninguém está preparado para tudo, nem deve estar. A vida é da forma que é para sermos testados. Que graça teria se já viéssemos com todas as respostas prontas, sem a necessidade de refletir e de fazer escolhas às cegas?

Quanto aos desvios de caráter onde são enquadrados? Por que não são censurados na mesma medida? Desde sempre, são suportáveis e os autores são considerados menos transgressores. Pais mandam filhos para o exterior com o intuito de esconderem potenciais delinqüentes, sofrem mais pela vergonha da exposição social do que pela percepção dos desvios daqueles pelos quais deveriam ser responsáveis; gente toca fogo em indigente e recebe condescendência da lei; homem estupra mulher e se defende alegando que a outra desejava aquilo, em função de um comportamento e do uso de vestimentas vulgares; dirigir embriagado e comprometer a vida de outras pessoas, devido a uma colisão dolosa; são todos crimes sem castigo... Mas quem define os padrões de enquadramento dos delitos e tomando como base quais critérios? Pergunta difícil de ser respondida. Mas, por outro lado, a reflexão sobre o tema é imprescindível para a garantia da saúde da teia da vida.

Dessa forma, um bom observador se dará conta de que em cada época da história da humanidade existiu um grupo seleto de marginalizados. Apenas se mudava o tema em voga. As bruxas que foram queimadas vivas; as mulheres adúlteras que foram apedrejadas em praça pública e ainda continuam a ser em algumas partes do mundo; os leprosos e tuberculosos escorraçados de suas cidades; os loucos internados nos hospícios; as mulheres histéricas; os classificados como feios e condenados pela ditadura da beleza; além de tantos outros. A ordem é tirar do campo de visão tudo aquilo que incomoda, que fere as leis, que aparenta ser anormal, disforme ou feio.

Mas o que há de tão imperfeito e amoral em se relacionar com alguém do mesmo sexo? Os laços de amor não contam? Será que é mais digno o casamento entre homem e mulher que não se suportam, que não se vêm como cúmplices da vida a dois, que apenas mantêm as aparências para receberem o título de casal modelo? Até que a morte os separe diz o padre. Uma só carne. Então, seguindo essa lógica, os que desejam intimamente a morte, mas que estão acorrentados a esse dogma serão os merecedores da misericórdia divina. Uns são consumidos pela angústia diária e sofrem de descrença crônica. Outros cultivam mágoa e rancor. Alguns buscam vidas paralelas para se aliviarem e encontrarem algo que os conforte e dê forças para enfrentar mais um dia... Essas condutas são mais saudáveis e indicadas segundos as bulas de Deus? Não é em nome Dele que os justiceiros se apegam para crucificar o desvio de natureza?

Então vamos à prática. Um episódio real mudou significativamente a minha postura em relação ao assunto. Posso até dizer que mudou a minha vida. Lamento o fato até hoje. Pela perda de um amigo querido e pelo fato de acreditar que poderia ter sido mais presente e maleável. Falo um ser que se foi e deixou muita saudade. Não suportou as pressões que alguém com suas escolhas tem que encarar e preferiu a morte. Baniu-se por si só. Fugiu para outro lugar, usou outro nome, encheu-se de coragem e pulou do 8º andar de um hotel. Morreu só, com sua identidade desfigurada e vítima do preconceito alheio. Nesse dia, registrou-se a perda de um ser maravilhoso. Profissional competente e de caráter irrepreensível. Só tinha um defeito enorme e imperdoável: era gay.

Já falei que toda generalização é burra e imprecisa, mas nesse caso, sustento até o fim que ela é de fato quase certeira. Supomos que fosse possível instalar em praça pública um detector capaz de aferir a qualidade do ser humano segundo as normas vigentes. A máquina poderia penetrar até os pensamentos mais obscuros, aqueles que se faz questão de esconder e disfarçar. E quem não passasse no teste seria banido para a terra dos insolentes, dos sem direitos, dos não dignos da majestosa sociedade. O aparelho estaria imune a qualquer tentativa de manipulação de resultados. Incorruptível e sem relativismos. A justiça nua e crua. Como é de se imaginar, ninguém passaria no teste ou quase todo mundo seria reprovado. Quem sabe esse não seria um bom recomeço? À primeira vista, pode até ser. Mas a nova maioria de excluídos iria impor suas novas regras levando tudo de volta ao começo. Então, não atire a primeira pedra...

A solução desse tipo de dilema social é muito complexa e sofrida. Mas vigora sobre todas as leis, o irrestrito progresso da alma. A natureza é tão perfeita que até aqueles pobres de espírito têm a sua chance de transcender. Sob essa ótica todos têm lugar ao sol e são dignos de indulgência, condescendência e amor. Pode parecer um posicionamento ingênuo e até infantil para alguém da minha idade. Contudo, crer em algo dessa magnitude fortalece a minha fé no entendimento de que tudo feito com o coração aberto e em busca do auxílio indiscriminado é revertido em prol de uma coletividade maior do que aquela a qual se busca beneficiar. Estamos todos no mesmo barco e enquanto não nos conscientizarmos de que a fragmentação social é o cerne da falência da própria sociedade, continuaremos enfermos e à margem do pior lado de nós mesmos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

É Proibido (por Pablo Neruda)

É proibido chorar sem aprender,

Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.

É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.

É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.

É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.

É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.

É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.

É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.

É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Viver Despenteada (Martha Medeiros)

Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade…


O mundo é louco, definitivamente louco…
O que é gostoso engorda. O que é lindo custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia…

- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar a pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa idéia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível…

Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado…
Mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.

É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir
Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável, toda arrumada por dentro e por fora.
O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique seria…
E talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenho que me sentir bonita…
A pessoa mais bonita que posso ser!

O único que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser.
Por isso, minha recomendação a todas as mulheres: se entregue, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável, admire a paisagem, aproveite, e acima de tudo, deixa a vida te despentear!!!

O pior que pode acontecer é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo...