"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tema de destaque 18 - Amor sem preconceitos

Uma forma saudável e construtiva de exercitar a percepção sobre os acontecimentos da vida é olhar o passado com outros olhos, em outro tempo e com outra bagagem. É assim que se faz para analisar períodos históricos e o próprio curso da humanidade. Então, por que não adotar essa prática para ampliar a introspecção acerca do universo particular de cada um de nós? O filme Philadélphia, estrelado por Tom Hanks e lançado em 1993, oferece uma grande oportunidade para o exercício da reflexão acerca do tema preconceito, principalmente com relação à AIDS e ao homossexualismo.

Embora essas duas palavras retratem um contexto da atualidade, e mesmo que a sociedade tenha evoluído significativamente a forma de lidar com elas nos últimos 15 anos, ainda refletem uma tendência ancestral do ser humano de condenar os diferentes, de não querer correr riscos, de julgar condutas alheias segundo suas próprias referências, de desqualificar os supostos transgressores e atirar pedras. A diferença é que nos primórdios as pedras eram de verdade, machucavam fisicamente e até levavam o condenado à morte. Mas agora, também assumem novos formatos e resultam em efeitos mais dolorosos.

Mesmo sabendo que esse comportamento acompanha a natureza humana a perder de vista, é questionável o fato de alguém sentir qualquer tipo de prazer em diminuir o outro ou de aniquilá-lo como pessoa. Não estou falando de inimigo de uma guerra, onde prevalece o lema matar ou morrer. Refiro-me a aquele cidadão comum que compartilha algum espaço físico com um grupo de pessoas ou até um familiar mais distante e em casos mais extremos alguém que concebemos. De que forma esse outro interfere negativamente na vida alheia?

Esse comportamento de perseguição às bruxas deixa no ar a sensação de que essas pessoas acreditam que fizeram a coisa certa ao puxar o tapete de alguém que já vive um eterno conflito interior. É o sentimento de missão cumprida, como se tivesse sido escolhido a dedo para realizar algo indelegável e intransferível; de importância incalculável para o progresso da humanidade. Em alguns casos é como chutar um bicho morto. Talvez, ao atirarem as pedras, essas pessoas devam, erroneamente, exorcizarem seus próprios demônios. Quem sabe a psicologia possa explicar isso, por meio das teorias que falam das projeções do indivíduo nas outras pessoas. Deve ter alguma racionalidade mesmo que irracional capaz de apontar razões para essas tendências.

Algo de destaque no filme foi o preconceito contundente em relação à homossexualidade. Foi mostrado que as pessoas que adquirem a AIDS por razões entendidas como incontroláveis, tal como a transfusão de sangue, são menos hostilizadas e até dignas de condescendência. Coitadinhas, são vítimas de uma fatalidade. E o homo, principalmente o macho gay, buscou o que merecia. Que pensamento medíocre! Não se deve diminuir a decepção que um hemofílico contaminado contra sua vontade possa ter em relação à vida. Mas será que a vida de um indivíduo vale menos que a de outros por não se enquadrar no modelo preconizado por aqueles que se julgam acima do bem e do mal? Os auto-intitulados deuses do universo? Pessoas são pessoas em quaisquer circunstâncias.

É claro que existem situações que causam medo, principalmente aquelas desconhecidas e inesperadas. Mas isso não é argumento suficiente para desqualificar alguém e classificá-lo como um ser inferior, ou até mesmo como uma aberração. E, além disso, ninguém está preparado para tudo, nem deve estar. A vida é da forma que é para sermos testados. Que graça teria se já viéssemos com todas as respostas prontas, sem a necessidade de refletir e de fazer escolhas às cegas?

Quanto aos desvios de caráter onde são enquadrados? Por que não são censurados na mesma medida? Desde sempre, são suportáveis e os autores são considerados menos transgressores. Pais mandam filhos para o exterior com o intuito de esconderem potenciais delinqüentes, sofrem mais pela vergonha da exposição social do que pela percepção dos desvios daqueles pelos quais deveriam ser responsáveis; gente toca fogo em indigente e recebe condescendência da lei; homem estupra mulher e se defende alegando que a outra desejava aquilo, em função de um comportamento e do uso de vestimentas vulgares; dirigir embriagado e comprometer a vida de outras pessoas, devido a uma colisão dolosa; são todos crimes sem castigo... Mas quem define os padrões de enquadramento dos delitos e tomando como base quais critérios? Pergunta difícil de ser respondida. Mas, por outro lado, a reflexão sobre o tema é imprescindível para a garantia da saúde da teia da vida.

Dessa forma, um bom observador se dará conta de que em cada época da história da humanidade existiu um grupo seleto de marginalizados. Apenas se mudava o tema em voga. As bruxas que foram queimadas vivas; as mulheres adúlteras que foram apedrejadas em praça pública e ainda continuam a ser em algumas partes do mundo; os leprosos e tuberculosos escorraçados de suas cidades; os loucos internados nos hospícios; as mulheres histéricas; os classificados como feios e condenados pela ditadura da beleza; além de tantos outros. A ordem é tirar do campo de visão tudo aquilo que incomoda, que fere as leis, que aparenta ser anormal, disforme ou feio.

Mas o que há de tão imperfeito e amoral em se relacionar com alguém do mesmo sexo? Os laços de amor não contam? Será que é mais digno o casamento entre homem e mulher que não se suportam, que não se vêm como cúmplices da vida a dois, que apenas mantêm as aparências para receberem o título de casal modelo? Até que a morte os separe diz o padre. Uma só carne. Então, seguindo essa lógica, os que desejam intimamente a morte, mas que estão acorrentados a esse dogma serão os merecedores da misericórdia divina. Uns são consumidos pela angústia diária e sofrem de descrença crônica. Outros cultivam mágoa e rancor. Alguns buscam vidas paralelas para se aliviarem e encontrarem algo que os conforte e dê forças para enfrentar mais um dia... Essas condutas são mais saudáveis e indicadas segundos as bulas de Deus? Não é em nome Dele que os justiceiros se apegam para crucificar o desvio de natureza?

Então vamos à prática. Um episódio real mudou significativamente a minha postura em relação ao assunto. Posso até dizer que mudou a minha vida. Lamento o fato até hoje. Pela perda de um amigo querido e pelo fato de acreditar que poderia ter sido mais presente e maleável. Falo um ser que se foi e deixou muita saudade. Não suportou as pressões que alguém com suas escolhas tem que encarar e preferiu a morte. Baniu-se por si só. Fugiu para outro lugar, usou outro nome, encheu-se de coragem e pulou do 8º andar de um hotel. Morreu só, com sua identidade desfigurada e vítima do preconceito alheio. Nesse dia, registrou-se a perda de um ser maravilhoso. Profissional competente e de caráter irrepreensível. Só tinha um defeito enorme e imperdoável: era gay.

Já falei que toda generalização é burra e imprecisa, mas nesse caso, sustento até o fim que ela é de fato quase certeira. Supomos que fosse possível instalar em praça pública um detector capaz de aferir a qualidade do ser humano segundo as normas vigentes. A máquina poderia penetrar até os pensamentos mais obscuros, aqueles que se faz questão de esconder e disfarçar. E quem não passasse no teste seria banido para a terra dos insolentes, dos sem direitos, dos não dignos da majestosa sociedade. O aparelho estaria imune a qualquer tentativa de manipulação de resultados. Incorruptível e sem relativismos. A justiça nua e crua. Como é de se imaginar, ninguém passaria no teste ou quase todo mundo seria reprovado. Quem sabe esse não seria um bom recomeço? À primeira vista, pode até ser. Mas a nova maioria de excluídos iria impor suas novas regras levando tudo de volta ao começo. Então, não atire a primeira pedra...

A solução desse tipo de dilema social é muito complexa e sofrida. Mas vigora sobre todas as leis, o irrestrito progresso da alma. A natureza é tão perfeita que até aqueles pobres de espírito têm a sua chance de transcender. Sob essa ótica todos têm lugar ao sol e são dignos de indulgência, condescendência e amor. Pode parecer um posicionamento ingênuo e até infantil para alguém da minha idade. Contudo, crer em algo dessa magnitude fortalece a minha fé no entendimento de que tudo feito com o coração aberto e em busca do auxílio indiscriminado é revertido em prol de uma coletividade maior do que aquela a qual se busca beneficiar. Estamos todos no mesmo barco e enquanto não nos conscientizarmos de que a fragmentação social é o cerne da falência da própria sociedade, continuaremos enfermos e à margem do pior lado de nós mesmos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

É Proibido (por Pablo Neruda)

É proibido chorar sem aprender,

Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.

É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.

É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.

É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.

É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.

É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.

É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.

É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Viver Despenteada (Martha Medeiros)

Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade…


O mundo é louco, definitivamente louco…
O que é gostoso engorda. O que é lindo custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia…

- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar a pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa idéia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível…

Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado…
Mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.

É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir
Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável, toda arrumada por dentro e por fora.
O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique seria…
E talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenho que me sentir bonita…
A pessoa mais bonita que posso ser!

O único que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser.
Por isso, minha recomendação a todas as mulheres: se entregue, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável, admire a paisagem, aproveite, e acima de tudo, deixa a vida te despentear!!!

O pior que pode acontecer é que, rindo frente ao espelho, você precise se pentear de novo...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tema de destaque 17 - Olhar para dentro

Amsterdã é um lugar lindo e incomparável. Poderia até fazer parte daquelas listas temáticas que reúnem as coisas e os lugares que deveríamos experimentar antes de morrer. Deveria também ser mundialmente famosa por suas pequenas singularidades, que vão muito além do uso deliberado de drogas nos bares e da rua da luz vermelha. Foi assim que batizei o bairro que comporta as famosas vitrines, onde as mulheres expõem o corpo e vendem sexo para maiores de idade. A cidade tem uma conformação diferente e muito peculiar. Parece um formigueiro humano e de bicicletas também, com gente indo e vindo de todos os lados. Gente preta, branca e amarela. Uma cidade cosmopolita com uma pitada de charme europeu.

Entretanto, dentre todas as paisagens, novidades e atrações, dois museus me chamaram a atenção em especial. Um deles é a Casa de Anne Frank, fundado na década de 1960, em homenagem a ela, sua família e demais pessoas que permaneceram refugiadas no edifício por cerca de dois anos. Ficaram todos escondidos durante o período de ocupação dos Países Baixos pelos nazistas, na Segunda Guerra. Criado com o intuito de fortalecer os laços entre diferentes culturas, religiões e raças, representa um ato silencioso e pacífico de resistência e protesto ao preconceito e à discriminação das diferenças.

Depois de percorrer o museu e assistir ao emocionante depoimento do pai dela, imaginei quais motivos levaram aquela menininha de 13 anos a ter pensamentos tão profundos sobre as questões da vida. E mais, registrá-los em um diário com o compromisso de quem estava escrevendo uma parte da história da humanidade. Quem sabe foram os efeitos da guerra, do preconceito, da insegurança, do isolamento, do medo? Talvez um pouco de cada; tudo junto. Mas sem desconsiderar a relevância do momento histórico, minha intuição apontou mais uma razão: quando se tem a visão para fora bloqueada com uma venda negra, tendemos a desenvolver outras formas de percepção do mundo. O que antes se via com os olhos, passa a ser visto pelo lado de dentro, com o coração, mais precisamente. É o que nos resta se quisermos recuperar a sensação de estarmos vivos.

O mundo exterior, cada vez mais, oferece-nos, simultaneamente, milhares de dispositivos para destinarmos nossa atenção. Insere-se na pele, de forma recalcitrante, um modo de vida mutante, fluido e multifacetado. Não conseguimos dar conta de ver tudo, que dirá de absolver o conteúdo disponibilizado e veiculado aos quatro cantos do mundo. Tempo e espaço não constituem mais fatores limitantes para a difusão da nova onda. Exclusividade, individualidade e humanidade são atributos ultrapassados e vencidos pela era da cibernética. Tudo é sinônimo de nada em um piscar de olhos. Basta uma novidade cair nas graças do povo que automaticamente ficamos para trás. Desatualizados, obsoletos, pré-históricos. Contrapondo-se essa modernidade, um cativeiro teria como lado positivo a possibilidade de obrigar aquelas pessoas a se olharem nos olhos, a conversarem entre si e, principalmente a despertarem o senso de viver em comunidade.

No contexto do ter para ser, enfrentamos uma fila imensa na madrugada, só para presenciar o lançamento do modelo mais novo de um aparelho celular ou de um carro. Fazemos das tripas coração, mas pagamos o preço que for necessário para sermos os primeiros a possuírem os bens disputados. Todos esses paramentos fazem parte da escultura viva do homem da atualidade. Cada um ao seu modo. Hoje, rosa; amanhã, preto; depois, incolor; um dia, nada. Aos poucos, anestesiamos nossos sentidos e passamos a responder aos estímulos sem expressarmos voluntariamente nossas vontades. Distanciados das nossas origens, tornamo-nos marionetes manipuladas por um mundo virtual e intangível, que é a representação viva do exagero material. Tudo o que desejamos fervorosamente é ser mais um na multidão. Não destoar em nada. Quanto mais parecidos, melhor. Dá trabalho e custa caro acompanhar o ritmo frenético da moda que personifica um modelo de ser: o de fora.

Partindo do princípio de que esse modus operandi está dando espaço a uma era de pessoas robotizadas e semi-humanas, é lícito agradecer à vida por todos os acontecimentos que nos remetem à nossa essência. É o reconhecimento de um resgate de si mesmo. Ser salvo por entrar em contato novamente com os sentimentos: o lado de dentro. Na maioria das vezes, esses encontros do eu com ele mesmo, ocorrem à nossa revelia. Só em um estágio de muita maturidade e depois do acúmulo de muitas lutas internas para que alguém se veja capaz de se encarar o desafio por livre e espontânea vontade. Fora isso, quase sempre os fatos estão impregnados de sofrimento e têm um caráter imperativo.

Ou dá, ou desce; ou trepa, ou sai de cima; ou vai, ou racha... Só um ultimato ou algo sobrenatural para nos trazer de volta ao prumo. Não é fácil sair da inércia e perder a sensação de segurança, pseudo controle e comodidade. Concordo que sofrer dói, desgasta, deixa marcas... Mas às vezes, só no tranco para a gente encarar os desafios. Em algumas situações, só mesmo uma guerra ou um acontecimento de grandes proporções para unir uma massa significativa de gente em torno de um mesmo ideal, voltando a ser humano. Em momentos assim, despertamos a solidariedade, a indulgência e a condescendência com o outro. São três fêmeas com significados parecidos, mas que diferem sutilmente entre si. O mais importante é que juntas, trazem à tona a bondade verdadeira e conduzem o homem aos tempos de paz; por dentro e por fora. Traz a liberdade: ser por fora o que se sente por dentro.

É certo que o medo de sofrer pode desencadear a manifestação do lado obscuro do ser humano, bem como gerar a obsessão por vingança, ou mesmo uma reação mais amena, como resultado do nosso instinto de sobrevivência. Contudo, é inegável que essa condição de vulnerabilidade coletiva também pode nos remeter a um lado bom, quando estamos em uma situação que envolva a relatividade com outras pessoas em situações mais difíceis. É como se existisse uma linha tênue e imaginária entre os dois extremos. Cabe a nós fazermos a escolha de que lado nós queremos estar: o de dentro ou o de fora?

Ao olhar para dentro poderemos nos deparar com algo muito assustador ou com sentimentos que têm a capacidade de nos fragilizar, tornando-nos seres mais vulneráveis. Por outro lado, é assim que conseguimos acessar nossos tesouros inatos, as virtudes de cada um, a origem de tudo, inclusive a nossa. Ao vivenciarmos o processo ficamos em meio a uma crise de pensamento, trazendo consigo o conhecimento que transforma a nossa visão de mundo. Dessa forma, surgem dois mundos: o do ser e o do não-ser. No primeiro, é necessária a entrega absoluta, sem economias nem restrições, embora devam ser observados os balizamentos para garantir a saúde do bem viver. Já o segundo, incorre naquele caso em que as pessoas vivem como fantasmas e têm a sensação de terem passado imunes à vida. Sem passado, nem presente e muito menos futuro.

Então, neste exato momento, pule do precipício. Desça do muro,encare o tranco e desafie o medo e os perigos ao seu redor. Corra riscos sem temer ter que juntar os caquinhos daqui a cinco minutos, cinco dias ou cinco anos. O que vale é viver e tornar-se alguém melhor depois de um tempo. E melhor ainda é se nessa caminhada, conseguirmos alegrar a vida de outras pessoas ao mesmo tempo em que buscamos a nossa felicidade. Com o passar do tempo se aprende a profundidade adequada para cada mergulho. Mas para isso é preciso muito treino.

Portanto, sinta-se abençoado. Você tem a faca e o queijo na mão por não precisar ser submetido a uma condição extrema de sofrimento para conseguir olhar o seu interior e compartilhar sua essência com outras pessoas. Use e abuse da interação a dois, a três, a quatro... Quanto mais, melhor. Não falo da promiscuidade superficial provocada por sensações efêmeras. Ressalto a explosão do encontro de almas afins; a sensação do fervor do sangue que corre nas veias; a alegria de viver por sentir-se alimentado com amor; da esperança de ser um semeador.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Tema de destaque 16 - Artimanhas do sexo frágil

Muitos são os truques e charmes que nós mulheres usamos para conseguir algo do nosso interesse. O mais antigo e famoso de todos é o tradicional golpe da barriga. Desde que o mundo é mundo, essa é uma alternativa a que muitas recorrem para manter um homem ao lado, mesmo que não seja pelo tempo que elas gostariam. Dizem que uma criança tem o poder de sensibilizar. Em muitas vezes isso acontece, mas o objetivo maior de fazer com que o outro aprofunde os seus sentimentos quase nunca se concretiza. Contudo, sempre existem as exceções...

Então, voltando às artimanhas femininas, o segundo truque mais cotado é o uso das lágrimas, sem dó nem piedade. Quem resiste a aquele par de olhinhos tristes e desconsolados de uma pobre e indefesa mulher que se debulha em lágrimas? Parece até o olhar do gatinho de botas do filme Sherek! Um olhar tão inocente, tão pidão, tão sedutor. E foi a essa artimanha que sucumbiu o chefe de segurança de um dos maiores e metódicos aeroportos do mundo, o Heathrow de Londres.

Recentemente, estava lá, voltando para o Brasil. Naquela fila enorme para passar no raio x, antes de entrar na sala de embarque. Após 15 dias longe de casa, estava contando os minutos para voltar e ter o meu pequenino nos braços. Já estava roxa de saudades. Enquanto esperava na fila, imaginava a carinha dele quando abrisse os presentes carinhosamente escolhidos. Pensei em todos os seus gostos; um de cada lugar visitado. Afinal, uma criança de quase 3 anos já tem suas preferências ora! Carregava comigo cuidadosamente, uma sacola de mão, com um carrinho de controle remoto que seria entregue no dia das crianças.

Já estava com tudo arrumado. Garrafinha de água vazia, bota na mala para não ter que tirá-la, tênis nos pés e casaco na mão. A pasta de dente já acomodada na embalagem disponibilizada para guardar frascos de até 100 ml e fora da bolsa é lógico. Nada de cintos, moedas, celular no bolso, nem pulseiras. Ou seja, nada que potencialmente pudesse disparar aquele alarmezinho irritante ou que tivesse que ser abandonado. Estava tudo milimetricamente calculado e conforme o figurino. Segui ao pé da letra todas as orientações de segurança para embarque em vôos internacionais. Não era possível que depois de tanto sobe e desce não tivesse aprendido a lição. Então, fiquei com meu olhar sarcástico, confesso, observando os supostos inexperientes com um ar de quem já sabia tudo.

Na seqüência de cenas, duas senhoras tiraram quase tudo, literalmente, e, mesmo assim, a maquininha não parava de apitar histericamente. Depois chegou a vez de um grupo de cinco rapazes que tinham a aparência supostamente duvidosa. E pimba! Exatamente como eu imaginava, foram todos revistados minuciosamente, além de terem a bagagem de mão aberta. Nos 20 minutos seguintes, já estava craque em adivinhar quem iria disparar o tal do alarme ou ser submetido a uma revista mais minuciosa.

Finalmente chegou a minha vez. Peguei a bandeja, coloquei os meus pertences com toda a calma e respondi às simples perguntas de rotina que a funcionária fazia a todo mundo sem muita simpatia e com um tom quase mecânico. Tem algum líquido ou cremes na bolsa? Objeto cortante ou perfurante? Moedas, cinto, chaves ou celular no bolso? Está portando alguma arma? Alguma substância perigosa? A resposta foi negativa para todas. Passei pelo alarme com um ar de riso e me sentindo vitoriosa. Não fez barulho nenhum e nada de revista extra. Então, segui para recolher as minhas coisas do outro lado do raio x, mas a esteira parou de repente.

Percebi que a minha sacola de mão não havia passado e imediatamente acenderam uma luz vermelha chamando a atenção de todo mundo, principalmente dos funcionários responsáveis pela segurança. Rapidamente, alguém me perguntou se eu sabia o conteúdo da minha bagagem e respondi que sim; complementei detalhando que era um brinquedo, um carrinho com controle remoto. Então deixaram o objeto duvidoso passar e me chamaram para uma conversa particular. Nesse momento eu já estava preocupada e tinha perdido o sorriso sarcástico do canto da boca. Bem feito!

É muito curiosa a educação dos ingleses. Algo para admirar de verdade. E foi assim que o chefe da segurança me deu a notícia, com toda calma e controle peculiares a alguém que ocupa um posto desses, principalmente sendo inglês. Depois de abrir a caixa, o moço disse: “senhora, infelizmente o brinquedo não poderá seguir”. Perguntei o motivo e a resposta me deixou chocada: “o controle remoto do carrinho tem formato de uma arma”. Então retruquei: “mas nós estamos vendo que não se trata de uma arma, e sim da parte de um brinquedo”. “Podem passar o alarme, tirar os parafusos e revirar tudo, não há nada perigoso nem ilícito aí dentro”. Mais uma vez e com toda a classe, o funcionário complementou: “só será possível levar o carrinho. O controle tem o formato de arma, como já falei. Em função de episódios anteriores, alguns passageiros já usaram objetos com o formato similar a uma arma e causaram pânico no avião. Em função disso, fomos orientados a impedir o embarque de qualquer objeto com essas características”. Então, pedi para despachar o brinquedo junto com a bagagem e ele muito calmamente falou que não era possível; “regras de segurança senhora”.

Nesse momento, a ficha caiu. Quando menos esperava comecei a chorar desesperadamente. Não conseguia me conter. Não parava de repetir que era apenas um brinquedo inocente, para uma criança. Ninguém tinha me avisado no balcão da companhia aérea! Só pensava na carinha do meu filho quando recebesse o carrinho de controle remoto sem controle remoto. E quando ele perguntasse o porquê, eu iria tentar explicar na linguagem dele que o mundo de hoje está muito violento e confuso. E que algumas pessoas fazem coisas ruins e até machucam os outros de forma voluntária. Algumas delas também fazem brincadeiras sem graça, para dar sustos, e tentam fazer os outros acreditarem que estão armadas só pelo prazer de ver os rostos aterrorizados ou por se sentirem bem em bagunçar a ordem das coisas. E quanto mais ia pensando nessa resposta, mais lágrimas caíam do rosto, até o ponto em que o segurança me pediu um minuto. Retirou-se do local e pontualmente retornou com a solução para os meus problemas. “Pode seguir senhora e leve o brinquedo consigo. Não chore mais”. Agradeci fervorosamente, até demais para um britânico, e enxuguei as lágrimas.

Depois de todo o episódio resolvido ainda continuava angustiada. Deveria estar aliviada por ter conseguido garantir a feição de felicidade da minha criança. Já tinha ouvido casos parecidos e até piadas ou lido crônicas, mas nunca tinha presenciado algo assim. Confesso que prevalecia em mim o descontentamento oriundo de questionamentos sem respostas. Não sei se é ingenuidade, mas não entendo a razão de prevalência da relação complementar com constante ataque e defesa entre as pessoas. Em que mundo nós vivemos? Até que ponto pode chegar uma sociedade estressada, em que a parte avulsa de um brinquedo pode representar perigo ou uma potencial crise de pânico? Quem são essas pessoas que encaram essas ações como simples brincadeiras descompromissadas e sem a intenção de matar, mas com a intenção de ferir? Até onde pode chegar o lado negro do ser humano, que muitas vezes é cruel e nada condescendente com o próximo?

Fico pensando em que parte do sistema contribui para alimentá-lo e em que situações eu poderei interferir para ajudar a resgatá-lo. Vivemos em uma sociedade doentia, caótica, confusa e desconexa. Atualmente, dá-se mais importância a acontecimentos dessa natureza ao invés de nos preocuparmos com as mazelas do mundo. Mas é assim que funciona. O novo chama mais à atenção. Nossos olhos já estão acostumados à miséria da lida precária, à pobreza de espírito e, principalmente, à falta de sentido para a vida. Portanto, convido a todos a fazerem um exercício. Experimentemos olhar com mais afinco para o horizonte ao invés de nos assustarmos com as formigas que transitam aos nossos pés, porque quem não olha para cima não consegue enxergar as estrelas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tema de destaque 15 - Maternidade parte 1 - Gerar um filho

Gosto de falar tudo muito explicado para não dar margem a dúvidas. Por isso, tenho a tendência de buscar o começo, a origem das coisas, a essência das pessoas. Então, para falar de maternidade, nada mais justo do que relembrar os primórdios: a escolha de gerar um filho. De repente trinta anos na cara. Parece um lugar comum, ou soa como uma idade mágica, um número cabalístico que afeta as mulheres e provoca nelas um desejo desesperado de ser mãe. Não é bem assim, mas saliento que faço parte da geração mamãe anos 2000, em que a maioria das mulheres desfruta de um espaço diferenciado na sociedade. Dedicamos mais tempo à nossa vida profissional, casamos mais tarde e, naturalmente, acabamos deixando a maternidade em segundo plano ou algo para ser concretizado quando tudo estiver conforme nossos critérios de estabilidade emocional, financeira e intelectual.


Comigo foi assim. O relógio biológico fez tic-tac e despertou o desejo adormecido. Tomou conta de mim, uma vontade visceral de ser mãe. Sentia que faltava algo para completar a minha vida depois de ter estudado anos a fio; uma graduação, uma especialização, um mestrado e um relacionamento estável de dez anos. Olhando do ponto de vista da racionalidade pragmática, o momento não era o mais apropriado, mas agora que tudo passou, vejo que não poderia ter sido diferente.

Tinha acabado de pedir demissão do meu emprego para me dedicar aos estudos novamente, só que com outro objetivo: passar em um concurso público. Parecia tudo sob controle; um ano estudando, no seguinte fazendo as provas... Não era possível que não desse certo, pensei, tomando como base a minha disciplina espartana. Já tinha iniciado as aulas em um cursinho preparatório ainda trabalhando, durante o aviso prévio. Mesmo com toda a vontade de ser mãe aflorando à flor da pele, não estava muito certa se era o momento apropriado. Mas por indicação médica tive que interromper o uso de anticoncepcionais e... batata! Dois meses depois estava grávida! Completamente grávida! Sem nenhuma sombra de dúvidas.

Os primeiros momentos foram de muita festa. Comemoração com a família e um brinde a aquele serzinho sem nome, sem sexo e nenhuma identidade, mas que já comovia os nossos corações. Entretanto, depois de um mês na minha nova rotina, a ficha caiu. Bateu um desespero enorme que me engolia a cada dia me tirando o chão e qualquer sensação de segurança. Nunca tinha ficado sem trabalhar, sentindo-me completamente dependente e ainda mais sob os efeitos de zilhões de hormônios e substâncias corporais. De uma hora para a outra, apelando ao desespero, tentei fazer algo para atenuar a situação. Fui atrás de um novo emprego. Tive uma breve alegria de ter meu currículo escolhido em três seleções para cargos maravilhosos. Só tinha um detalhe: a minha total sinceridade nas entrevistas e o fato de ninguém querer contratar uma mulher grávida de 3 meses!

Fiquei arrasada com tudo isso, mas aos poucos, e com muita ajuda e paciência do meu companheiro, fui voltando a um estado mais próximo do normal. Entrei na hidroginástica, levantei da cama depois de um período de depressão, creio eu, e voltei à luta. Entendi aquelas negativas como um sinal da vida me dizendo que deveria continuar com meus planos. E assim o fiz. Tive uma “DR” comigo mesma, pedi perdão ao meu bebê por todas as aflições que ele deve ter sentido dentro da minha barriga, e só então passei a curtir a gravidez com leveza e muita alegria. Queria que ele soubesse que minhas preocupações estavam associadas à minha necessidade exagerada de ser boa provedora, para que nada lhe faltasse. Portanto, tentei apagar qualquer traço de lamentação ou de tristeza. Afinal de contas aquela criaturinha tinha sido concebida com muito amor.

Com a calma sob o controle da minha mente, experimentei cada momento e sentia todas as mudanças. Tudo estava bem novamente. Não tive enjôos nem indisposições. E a libido; foi a mil!!!! Um cuidado especial que tive foi a ingestão de florais receitados pela minha mãe. Cada um tinha um significado; fortalecer os laços entre mãe e filho; estimular a produção de leite; dar disposição, além de outros aspectos necessários a uma mãe de primeira viagem. Aos quatro meses, senti ele mexer pela primeira vez. Parecia uma leve sensação de cócegas provocada pelo movimento de abrir e fechar das asas de uma minúscula borboleta. Estava no momento de relaxamento da aula de hidroginástica e ele veio todo pra frente, formando uma bolinha que dava para ver sob a pele. Naquele momento, senti uma emoção inexplicável, tive a certeza de que estava gerando uma vida dentro de mim.

Durante os meses seguintes, passei a conversar com ele diariamente. Tínhamos os nossos rituais repletos de carícias na barriga com a ajuda de cremes e óleos relaxantes; ouvíamos músicas com toques delicados; a escolha do enxoval; os enfeites. Logo fiquei sabendo que era um menino e o tema de decoração do quarto foi dos transportes, em tons de azul e verde. Mudamos para um apartamento maior um mês antes do nascimento dele e o quartinho foi pintado e decorado com nossas próprias mãos. Em cada detalhe colocamos todo o nosso carinho e percebemos como é grande a capacidade de amar alguém.

Recordo que o apoio da minha irmã foi fundamental para o meu equilíbrio. Ela se antecipava e explicava tudo, todos os detalhes a cada mês. Em quase todas as consultas de pré-natal contamos com visitas tão curiosas como nós, os pais corujas. Uma semana antes do previsto, numa manhã de domingo, acordei e a bolsa tinha rompido. Minha mãe tinha chegado no dia anterior para o chá de fraldas. Como gostaria de tentar o parto normal avisei à minha médica e fui deixar a casa em ordem. Coloquei as roupas sujas na máquina para lavar, depois para secar no varal, varri a casa, arrumei a malinha da maternidade. E depois fomos à casa da minha irmã. Já era hora do almoço e uma feijoada nos esperava. Às 15:30h minha médica falou que não dava mais para esperar e me pediu para ir ao hospital. Fomos todos em comboio; avós, tios, primos, sobrinhos, gato, cachorro e papagaio. Como a dilatação não passava de 3 cm e já tinha perdido muito líquido amniótico, tivemos que recorrer à cesárea.

Não poderia estar melhor assistida: o papai era o médico auxiliar, minha irmã a fotógrafa, minha cunhada filmava todos os detalhes e o anestesista também era uma figura conhecida. Tudo aconteceu muito rápido. Anestesia na coluna; empurra daqui e dali e, de repente o choro. Meu e dele! Um por experimentar, pela primeira vez a vida literalmente entrar pelo nariz e eu, por sentir toda a emoção que um ser humano é capaz de sentir em poucos segundos. Hora do nascimento: 16:09. A mão do papai tremia ao cortar o cordão umbilical. Os meus olhos transbordavam de lágrimas e estavam curiosos para conhecer aquela pessoinha que tinha habitado o meu ventre nos últimos nove meses.

Finalmente chegou o nosso momento. Ele sentiu o meu cheiro e rapidamente se aquietou. Fez todo aquele ritual; pesar, medir altura, limpar secreções e tudo mais. Na sala de recuperação já deu a primeira mamada. Era muito guloso e logo secou o peito que mais parecia uma bola de futsal. Cheguei ao quarto primeiro e fui recebida por todos. Parecia um grande evento na maternidade. Os funcionários falaram que nunca tinham tido uma paciente que recebera tantas visitas de uma só vez. Alguns minutos depois ele fez sua entrada triunfal, todo embrulhadinho em uma manta verde e guardadinho em um berço de acrílico. Passou de colo em colo, posou para fotos e mais fotos. Imediatamente foi apelidado de bebê Big Brother. Confesso que, mesmo mergulhada naquele carinho todo, não agüentava mais esperar para tê-lo em meus braços. Alôôôôôôôô! A mãe aqui sou eu! Eu quero lamber a minha cria recém parida!

Quando finalmente todos saíram para comemorar o nascimento do pimpolho em uma pizzaria, minha mãe trouxe o meu anjinho na cama e só então pude ver todos os detalhes daquele rostinho meigo. Cinco dedinhos em cada mão, cabelos escuros como os meus, o corpinho minúsculo e vermelho, e os olhos do pai. Em poucos segundos já havia decorado cada pedacinho dele, até uma marquinha, tipo uma queimadura, na mão esquerda. Nossa primeira noite juntos foi inesquecível. Ele se agarrou no peito e só largou na manhã seguinte. Dormimos abraçados, eu e o meu grande tesouro. Ali senti que algo tinha mudado por dentro, algo mágico e imperceptível aos olhos. Estava encantada com aquele ser tão pequeno, frágil, indefeso e completamente dependente do meu amor.

Senti uma alegria tão grande ao amamentar, um estado de êxtase que parecia ter chegado a hora de morrer. Então fiz um acordo com Deus, antes mesmo de ir pra casa. Eu não poderia deixar este mundo antes de o meu pequeno completar 18 anos. Espero que ele cumpra. E se não cumprir terá que lidar com a ira de uma mãe enraivecida! Depois de toda a história contada, o ponto que gostaria de ressaltar dessa breve experiência é o fato de que apenas uma ou duas gerações depois, a escolha de gerar um filho é algo que pode despertar sentimentos completamente diversos dos vivenciados em épocas pretéritas. Em pouco tempo, é possível experimentar alegrias e tristezas, numa alternância entre desespero e lucidez, mesmo em situações tão favoráveis como as minhas.

Por outro lado, não há nada mais próximo do divino, neste planeta, do que a sensação de oferecer seu corpo como casa e princípio da vida para abrigar o desenvolvimento e a sobrevivência dos primeiros meses da vida de outro ser. Quando isso acontece, ficamos envolvidos por um amor que precede identidade, sexo, e ultrapassa qualquer desafio, inclusive a possibilidade de gerar um bebê especial. Somos movidas por um sentimento que desafia espaço, tempo e direção. E só então, só experimentando a sensação de segurar seu filho no colo, alimentá-lo, providenciar seus cuidados diários 24 horas por dia, só assim, é possível compreender por um instante o ditado que diz: amor de mãe é tudo.

Anne Frank - Trechos do diário (Museu em Amsterdã)

“April 9, 1944
One Day this terrible war will be over. The time will come when we will be people again and just Jews! We can never be just Dutch, or just English, or whatever, we will always be Jews as well. Bet then, we’ll wait to be.”

“July 11, 1942
We have to wisper and treak lightly during the day, otherwise the people in warehouse might hear us.”

“December 24, 1943
I long to ride a bike, dance, whistle, look at the world, feel young and know that I’m free.”

“February 17, 1944
The best remedy for those who are afraid, lonely or unhappy is to go outside somewhere where they can be quite alone with the heavens, nature, and God.”

Depoimento do pai dela: Otto Frank, 1970
“We cannot change what happened anymore. The only thing we can do is to learn from the past and to realize what discrimination and persecution of innocent people means. I belive that it”s everyones’s responsibility to fight prejudice.”

“Adormeço com a idéia tola de querer ser diferente do que sou, ou de que não sou como queria ser. E de que faço tudo ao contrário.”


“Aquele que é feliz espalha felicidade.Aquele que teima na infelicidade, que perde o equilíbrio
e a confiança, perde-se na vida.”

“Viro o meu coração do avesso. O lado mau para fora, o bom para dentro e continuo a procurar um meio para vir a ser aquela que gostava de ser, que era capaz de ser, se... sim, se não houvesse mais ninguém no mundo.”

“(…)fico tão confusa pela quantidade de coisas que tenho de considerar que não sei se choro, ou se riu depende do meu humor. Depois durmo com a sensação estranha de que quero ser diferente do que sou, ou de que sou diferente do que quero ser, ou talvez de me comportar diferente do que sou ou do que quero ser.”

“Ao longo de todo o tempo em que aqui estive, ansiei inconscientemente - e por vezes conscientemente - por confiança, amor e afeição fisica. Este anseio pode variar em intensidade, mas está sempre presente.”