"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tema de destaque 13 - Paciência

Recentemente visitei o museu de Vincent Willem van Gogh, em Amsterdã, Holanda. E depois de conhecer detalhes da vida e do sofrimento mental desse pintor, cresceu ainda mais a minha admiração por ele. Acho que tenho uma quedinha por pessoas problemáticas; elas têm uma inquietude que me atrai. Creio que é a percepção de uma insatisfação que inspira a busca por mudanças. Dessa forma, passei a visualizar o artista taxado de doido, além de suas obras fortemente influenciadas pelo impressionismo. Direcionei o meu olhar ao ser humano falível e nostálgico como todos nós o somos em algum momento da vida. E até doidos também, quando decidimos dar viradas radicais nos rumos do futuro, ao quebrar tabus e antigas tradições familiares, quando descordamos abertamente do posicionamento da grande maioria que nos rodeia, ou simplesmente, quando decidimos parar e não dar mais nenhum passo sem o consentimento formal da nossa consciência perturbada.

Algo que também me causou grande comoção nessa pequena jornada interna na essência de outra pessoa foi a sua relação de amizade tão forte e profunda com o irmão mais novo. Era uma ligação tão intensa, que Théo morreu cerca de seis meses depois de o pintor se suicidar com um tiro no peito. Brigavam e descordavam entre si com relação a pontos de vista paradoxais, mas estavam sempre juntos e unidos por um bem querer maior que as dificuldades que enfrentavam. Tudo bem que houve um motivo que perpassou a sua vontade própria; uma enfermidade. Mas às vezes, nossa alma tem a capacidade de atrair inconscientemente, os nossos desejos mais salutares e os obscuros também. Pedis e obterás... Não é assim a lei que governa o universo?

Durante todo o percurso no museu, que dispõe as obras em ordem cronológica, destacando a evolução dos dotes artísticos de van Gogh, é possível se deliciar com trechos de suas cartas ao irmão, os dizeres mais íntimos desse artista inconstante e atazanado pelos ruídos da sua própria mente. Nos dizeres, são narrados os momentos mais decisivos e importantes da sua vida. Conta quando largou o ramo da administração e se tornou pastor, seguindo o modelo do pai; quando entrou em crise existencial e resolveu tornar-se artista; e até quando se viu encurralado pela vontade de habitar outros mundos, por não mais suportar as dores do corpo e da alma. Sentia que não pertencia mais àquela realidade.

Lembro muito bem da época em que entrei em crise com a engenharia. Achava tudo muito técnico, mecânico e frio. A minha natureza sentimental, utópica e ideológica não me permitia criar um vínculo forte com o caminho que eu havia escolhido. Pensei em diversas opções de reconstruir meu campo profissional e, ao acender das luzes, pensei em me graduar em psicologia. Sempre amei as pessoas e estudar as diferentes manifestações da natureza humana. Era perfeito, mas antes de me aventurar em um vestibular iniciei uma especialização em Psicologia Junguiana. A experiência foi muito proveitosa e me trouxe vários esclarecimentos sobre a minha vida, uma vez que nessa época eu estava fazendo terapia.

Contudo, nada acontece por acaso e, na mesma época, engajei-me em um trabalho que combinava os conhecimentos sobre engenharia, meio ambiente, saneamento e urbanização de favelas. Que felicidade. Essa foi uma das melhores experiências que já tive na vida. Retomei o ânimo e consegui o que queria: introduzir humanismo ao meu trabalho; era o ingrediente que faltava. Atualmente não me vejo fazendo outra coisa, senão trabalhando com populações de interesse social. Também percebi o quanto é importante a existência de profissionais das ciências exatas que usem, além da mente, o coração nas suas atividades mais corriqueiras.

Mas voltando a van Gogh, quando menos esperamos, acabamos imersos no mundo de outra pessoa que em alguns aspectos retrata a nossa história, os medos, as inseguranças e até os arroubos de autoconfiança que surgem com os novos sonhos e paixões. Percebemos todos os seus conflitos, angústias, o sentimento de abandono pela vida por não conseguir concretizar seus sonhos. E depois de poucos instantes de reflexão, é possível concluir que a normalidade se expressa por meio de um comportamento irregular e inconstante. Ou seja, a normalidade não tem nada de normal! É inconstante e às vezes inalcançável. E ainda bem que a vida flui dessa forma, porque é a contradição entre a sensação de saciedade momentânea do espaço preenchido e da ausência do vazio, que movimenta a nossa vontade de buscar construir algo e de nos transformarmos em tudo aquilo que desejamos e acreditamos ser capazes de alcançar.

Quantos de nós já vivemos algo parecido com o que aconteceu ao pintor? Mesmo que a vontade de abandonar a vida não tenha se constituído em uma opção concreta, quantas vezes já desejamos sumir e começar tudo sem passado, sem um legado que obrigatoriamente nos vinculasse a um estado de ser? Fugir, sair sem rumo, esquecer o que passou e ter coragem para começar tudo novamente. Não é preciso ir tão longe, atravessar um oceano, visitar um país onde se fala outra língua para descobrir a resposta. Somos gente em qualquer parte do mundo. É claro que as peculiaridades culturais, as mudanças de valores em tempo e espaço, e principalmente, a natureza e a história de vida de cada um, influenciam significativamente os rumos e os humores de qualquer ser humano.

O que pude perceber, olhando para mim mesma e especulando sobre as minhas próprias inquietações, é que há uma similaridade comportamental entre diferentes pessoas nos momentos de aflição. Retrair-se, permitir-se sofrer, chorar, ficar descrente, se agarrar a alguém, arrumar-se na posição fetal... Percebe-se então, dois grupos predominantes, com algumas interseções, é claro: os que querem sobreviver e seguir adiante e aqueles que não enxergam a diferença entre estar vivo ou não. Apesar de todas as minhas lamentações cíclicas, creio que minha natureza se adéqua mais ao primeiro tipo. Isso, não quer dizer que não me veja, em algumas situações, com a postura de quem traz consigo a sensação de um cansaço eterno. Por outro lado, enxergo cada dia como uma possibilidade de fazer grandes mudanças, por meio de pequenos gestos de amor e carinho para comigo e com o próximo. É uma questão de treino e aperfeiçoamento com o tempo. É colocar-se na posição de um aprendiz apaixonado.

Disciplina, força de vontade, fé em si mesmo e um pouquinho de paciência são ingredientes indispensáveis a qualquer um que queira transpor barreiras e superar limites. Não falo do autocontrole nem do orgulho imbuído do convencimento que emerge da vaidade. Ressalto apenas a segurança desperta pela crença no encadeamento orientado dos fatos da vida. Nossos sonhos não têm tamanho definido, não fazendo muita diferença se são pequenos, médios ou grandes. São sonhos e, por essa razão, já são importantes desde a origem. Contudo, para realizá-los, precisamos desenvolver uma responsabilidade consciente, além do mapeamento de nossas potencialidades e fragilidades. Assim, fica mais fácil descobrir em quais aspectos deveremos fazer ajustes e buscar fortalecer ou minimizar. E até ver se dá pra encarar o desafio no momento em que a idéia surge ou se é melhor deixar o tempo passar um pouco e amadurecer como uma forma de treinamento e preparação.

Então, pensei: só mais um pouquinho de paciência... Bastava ter esperado um pouco mais e van Gogh teria realizado em vida o sonho de ter se tornado um grande artista. Sua intenção não era seguir um estilo determinado nem um único tutor. Buscava retratar os sentimentos das pessoas, como ele mesmo afirmou. Nessa tentativa, acabou retratando seus próprios sentimentos, que no fundo, refletem a alma de pessoas inquietas com a monotonia e mediocridade do mundo. Depois dele e com ele, surgiu o Expressionismo. Um movimento cultural que destacava a interiorização da criação artística ao invés das diversas formas de exteriorização. Cada artista projetava uma reflexão individual e subjetiva, sugerindo que a obra de arte seria o reflexo direto do mundo interior do artista expressionista. No ramo da pintura, o Expressionismo foi descrito como uma pintura dramática, subjetiva, que tinha como objetivo expressar sentimentos humanos.

Assim como ele, muitas outras criaturas se perdem por deixarem o medo do embate diário superar a necessidade de assistir ao final do filme, ver o desfecho das coisas. Sei que essa atitude configura um pouco que exige o esforço de proporções infinitas, mas se as inquietudes não forem adestradas e transformadas em tesão pela vida, o trabalho diário, possivelmente se perderá. E restará apenas o cansaço frustrante das sucessivas tentativas inalcançáveis, deixando predominar o sentimento de incompetência e fracasso. Só mais um pouco de paciência e chegaremos lá; um dia todos nós chegaremos.

Encerro esse texto deixando trechos da sábia música de Lenine que inspirou o título da reflexão: Paciência. Pensemos que tudo é uma questão de tempo. Tudo tem sua hora e momento mais apropriado para acontecer. Nem antes nem depois. O importante é estarmos atentos na estação, para quando o trem passar, ingressarmos nele e rumarmos no destino certo. Mesmo com dúvidas, uma vez que elas são inerentes à vida. Os riscos são apenas um detalhe. E só é possível fazer inferências a respeito de suas proporções. Nenhuma previsão é exata; nada está sob a égide do controle absoluto. Mas se pretendemos ser inteiros, devemos estar dispostos a pagar o preço da completude. Sofrer, sorrir, chorar, sentir-se cansado, sorrir novamente. Lutar, viver, desabrochar, crescer e depois transcender na forma de uma borboleta com asas largas e cores cintilantes.



“Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tema de destaque 12 - Martha Medeiros, prazer em conhecê-la

Quando compartilhei com meus amigos a idéia de escrever no blog, imediatamente tive muitas contribuições de temas e de leituras para inspirar na concepção dos meus textos. Especialmente dos meus colegas de um curso de especialização que ainda estou terminando, em fase de elaboração da monografia. Várias pessoas me falaram sobre ela, principalmente depois de eu ter dito que tinha adorado o filme Divã. E com toda a minha ignorância, cada vez que era abordada: “você já leu os textos da Martha Medeiros?” respondia que não. E alguém dizia: “mas foi ela quem escreveu o livro Divã, que foi produzido como peça e depois como filme”. Até no trabalho, uma amiga me falou sobre ela e me indicou uns sites para leitura.

Como inaugurei o blog perto do meu aniversário, muito certeiramente, fui presenteada com o livro Doidas e Santas. O meu amigo disse que esse era um dos melhores livros dela e que se encaixava com a minha proposta do blog e até, um pouco, com os assuntos que pretendia abordar. Relutei um pouco em ler o livro de imediato. Confesso que de cara achei o título provocante e instigante, mas me contive. Tinha a impressão de que seria influenciada e eu não pretendia copiar ninguém. Estava vivenciando uma fase muito intensa de autoconhecimento e, por isso, queria dar asas à minha própria imaginação. Deixar os meus sentimentos fluírem naturalmente, sem nenhuma referência além de mim mesma e da minha forma de perceber o mundo e as pessoas.

Já tinha postado alguns escritos e refazia quase que diariamente uma interminável lista de assuntos prioritários. A minha imaginação estava completamente solta e a criatividade em alta, apesar de estar muito atarefada com a sobreposição das atividades domésticas, do trabalho e do bendito curso. Mas a leitura sempre representou para mim uma forma de descansar a mente e de sair deste mundinho material. Então, sempre que estou sobrecarregada, me agarro a um livro para relaxar e percorrer mundos distantes para depois retornar ao meu com novas roupagens e outros pontos de vista sobre a minha própria visão da vida. Uma boa leitura nunca é solitária. Ela é sempre recheada de pequenos lampejos de idéias nutridos por um diálogo entre o livro e o leitor. Um bom livro, na maioria das vezes, consegue nos transportar a um tempo, lugar, espaço diferente, o que enriquece demasiadamente as nossas possibilidades de entendimento de qualquer coisa que seja.

Numa certa tarde de domingo, depois de terminar os trabalhos de uma disciplina da especialização, cruzei o meu olhar com o livro que estava escondido em baixo de uma pilha de outros livros, na minha mesa de cabeceira. Bateu a curiosidade novamente. Uma amiga do trabalho já tinha lido e falou que tinha gostado bastante. Então me rendi. E não é que tava todo mundo certo! De cara me identifiquei com o estilo dela, os temas, a forma de emitir a opinião sobre cada assunto. Ainda no início do livro, senti um frio na barriga quando percebi a primeira “coincidência”. Li uma crônica que tratava exatamente do mesmo assunto do meu último post do blog: Tema de destaque 9 – As doenças da alma. É claro que o título e a abordagem adotados pela autora eram diferentes dos meus: Quando o corpo fala. Contudo, a essência era a mesma, inclusive a fonte de inspiração, a autora Louise L. Hay, numa tentativa de falar sobre as tendências de somatização das dores psíquicas no corpo físico.

Depois dessa crônica, o livro se tornou uma sucessão de supostas coincidências: o filme Match point de Woody Allen, que me marcou pelo fato do meu aprendizado sobre o nosso controle parcial ou até insignificante em relação à sorte da vida, que também é descrito no livro; outro filme, Mentiras sinceras, ao qual a autora se refere a uma cena de destaque, onde enfatiza a importância da entrega verbalizada na relação a dois e o silêncio como a arma letal das relações humanas, que foi um dos meus maiores aprendizados na vida: falar sempre, ou quase sempre; o filme Terapia do amor, destacando o episódio da mocinha que vivencia a dificuldade de viver um relacionamento sabendo que ele vai acabar adiante, mas que percebe que o investimento vale a pena por se saber que não será um tempo perdido; o filme Pecados íntimos, associando a tendência de seguir roteiros conhecidos, papéis previamente estipulados para desempenharmos nas nossas vidas, ao estado de adultos como crianças grandes, pessoas que ainda não cresceram emocionalmente, sendo esse um tópico central de minhas reflexões sobre as escolhas que fazemos na vida.

Na sequência, o livro Tête-à-Tête, assumindo que gosta de ler biografias (eu adoro), enfatizando o fato de Sartre e Simone terem se tornado prisioneiros da sua própria teoria de amor livre, uma impressão que também tive ao ler o livro; a menção sobre a escritora Clarice Lispector, que adoro, e sua “pior” vontade de viver, que foi interpretada como aquela que faz descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, saber-se capaz de agarrar o instante e lidar bem com o que não é definitivo – tudo; o gosto pelos livros de Irvin Yalom (Quando Nietzsche chorou e A cura de Schopenhauer, além de outros), destacando a fascinação pelos assuntos relacionados às questões psicológicas do ser, que é um tema do meu interesse desde criança, inclusive o autor mencionado; o filme Na natureza selvagem, abordando a necessidade de entrarmos em contato com nossos sentimentos mais primitivos para descobrirmos o que nos define de fato, vivendo um instante de leveza, deixando-se levar pelo romantismo e idealismo juvenis que me causou essa mesma sensação impactante após assisti-lo.

A cada crônica que eu lia me apaixonava ainda mais. Ficava me questionando como poderia existir alguém tão distante e ao mesmo tempo tão próxima de mim. Com gostos parecidos, interesse por temáticas similares, livros e filmes; além de apresentar o posicionamento análogo ao meu em relação a alguns aspectos críticos da vida, que usava as palavras exatamente como eu gostaria para explicar cenas e acontecimentos do cotidiano. Quem era essa desconhecida por quem eu já sentia tanta simpatia e familiaridade? Quanta coincidência, eu pensei comigo mesma.

Enfim, depois do primeiro impacto do amor à primeira vista, vieram os primeiros raios oriundos da reflexão. As similaridades eram muitas, mas não eram simples coincidências. Somos mulheres, mães, amantes e antes de tudo, seres humanos. Compartilhamos um conhecimento e preferências ancestrais, associados à nossa espécie, salvo algumas exceções e especificidades da particularidade da história de vida de cada pessoa. Por isso a sensação de coincidência. Acredito que outro fator preponderante nessa sucessão de pequenas convergências é o fato de gostarmos de escrever. Eu como amadora e ela como profissional.

Nessa condição, de descrever com sentimento, somos levadas a sentir a vida e as pessoas de forma a não economizar emoção, nem tempo, nem detalhes. Pelo contrário, quanto mais mergulhamos fundo e ficamos embriagadas do universo ao nosso redor, mais aguçada se torna a nossa percepção e a ousadia, fazendo com que ampliemos os horizontes de entendimento sobre as nossas próprias convicções a respeito do mundo interno e do externo. Portanto, cada vez que nos comunicamos com o mundo de fora, por meio de nossos escritos, emitimos opinião a partir da nossa capacidade de fazer leituras subliminares, assim como nos mostrarmos como somos por dentro.

Martha Medeiros, muito prazer em conhecê-la, pela leitura das suas crônicas maravilhosas, com linguagem simples, mas prufunda e certeira. Uma filósofa nata que mistura todos os estilos e não se configura como nenhum deles. Assume a si própria. Obrigada por ter invadido o meu mundinho particular, por meio de um ato de carinho, do incentivo a um projeto de vida, por mais simples e despretensioso que seja. Porque viver nunca é pouca pretensão. É a busca pela conexão com o presente. É a tentativa de se libertar do hiato de vida que prevalece quando estamos presos em um tempo pretérito devido a arrependimentos e apegos ou imersos em um futuro que nunca chega, por não passar de expectativas não colocadas em práticas pelo medo de errar ou da própria responsabilidade de se fazer a escolha. Viver é simplesmente ou complicadamente, respirar calmamente ao acordar sem se desesperar com nada. É entender que tudo tem uma razão de ser. E que quando descemos a correnteza do rio sem resistência, sem querer nos fixarmos em um ponto específico do seu leito, ou apressarmos o seu curso, chegamos ao nosso destino final menos machucados e no tempo certo.

Paulo Freire - Ousar

“Minha intenção neste texto é mostrar que a tarefa do ensinante, que é também aprendiz, sendo prazerosa é igualmente exigente. Exigente de seriedade, de preparo científico, de preparo físico, emocional, afetivo. É uma tarefa que requer de quem com ela se compromete um gosto especial de querer bem não só aos outros, mas ao próprio processo que ela implica. É impossível ensinar sem essa coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes de uma desistência. É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem cuidada de amar. Daí que se diga no terceiro bloco do enunciado: Cartas a quem ousa ensinar. É preciso ousar, no sentido pleno desta palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico, senão de anti-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com, esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional. É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições que conhecemos, mal pagos, desrespeitados e resistindo ao risco de cair vencidos pelo cinismo. É preciso ousar, aprender a ousar, para dizer não à burocratização da mente a que nos expomos diariamente. É preciso ousar para continuar quando às vezes se pode deixar de fazê-la, com vantagens materiais.”

Paulo Freire – do livro Professora sim, tia não – cartas a quem ousa ensinar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Tema de destaque 11 - Ser Alguém

Recentemente, assisti ao filme Território Restrito, que apresenta diferentes realidades de pessoas que têm a idéia fixa de desfrutar de uma vida melhor nos EUA, mesmo que se submetendo a situações insanas para conseguir o bendito Green Card. Deixam tudo para trás e fazem todos os sacrifícios possíveis e impossíveis, movidos por um pensamento irredutível de lutar por um sonho, pelo direito a uma vida melhor. Conheço uma família que vivenciou essa trajetória por motivos similares. Tinham vontade de fugir da violência urbana, da sensação constante de sonhos frustrados, da decepção com os governantes do país...
Imediatamente, veio à tona em mim a necessidade de me questionar a respeito disso, desarmada e desprovida de meus próprios preconceitos. Será que é isso mesmo? Essas pessoas só podem ser “alguém” e terem direito a um futuro digno com esse título verde na mão e especificamente nesse espaço físico, milimetricamente disputado? Por que as leis que regem a vida seriam tão injustas ou sem noção a ponto de povoarem o mundo com bilhões de seres humanos, os quais estão constantemente à procura da felicidade, sendo que o objeto almejado apenas poderia ser contemplado por uma minoria privilegiada que estivesse ocupando um lugar físico específico? Por que temos a tendência de atribuir a fatores externos a autonomia sobre o nosso estado íntimo de auto-realização e de felicidade?
O primeiro lampejo de resposta ao meu questionamento próprio faz referência a dois aspectos, que se desdobraram em outros dois questionamentos: o que significa ser alguém na vida e quais são os requisitos para ser feliz. Sei que essas perguntas nos remetem a sentidos altamente subjetivos, relativos e pessoais. Mas talvez, a minha forma de compreender essas questões apresente similaridades e até mesmo aspectos que permeiam as aspirações de qualquer pessoa. Então vamos lá, vamos ver o bicho que sai da minha cachola... Interligar os pontos, fazer analogias e associações.
Pensando no princípio de tudo, é possível afirmar que já somos alguém antes mesmo da concretização do nascimento. O ato de concepção em si, já garante ao ser humano, direitos assegurados em lei, mesmo para aqueles pequeninos embriões indesejáveis, não sonhados, supostamente acidentais. Todos têm o direito à vida, é o que se prega. Seguindo essa lógica, acrescento que a lista dos tais direitos, já somados a deveres, após tornar-se alguém no mundo exterior, fora do ventre, apenas cresce.
Em princípio, essa forma legalista de visualizar todos como iguais retrata o melhor dos mundos, inclusive para os ocupantes do terceiro nível, os supostos países em desenvolvimento. Transmite a todos a sensação fugaz de que existe um este superior que disciplina a convivência entre os iguais. Entretanto, a chamada vida real tem suas próprias leis e códigos de ética, os quais apresentam lógicas contraditórias aos padrões ideais. Assim, a universalização da “igualdade” fica atrelada a sonhos e condições individuais. Contudo, a vontade é de todos, ou pelo menos da grande maioria.
O tempo passa e, com ele, cada pessoa escreve sua história que resulta tanto de escolhas próprias, quanto de imposições circunstancias, às vezes oriundas das escolhas de outros, que naturalmente já foram afetados por outros, que interagem com outros e mais outros... Forma-se a teia da vida. Um emaranhado de redes que interliga seres de diferentes identidades, posições sociais, valores, princípios, bem como de condições físicas, psicológicas e materiais que diferem umas das outras desproporcionalmente.
Os resultados dessas interações, somados aos embates diários inerentes ao ser social, que vive em comunidade, provoca impactos e sentimentos de efeitos desmedidos e incalculáveis. Soma-se a isso tudo, o lado de dentro; configurado pela mente e pelas emoções. O cerne da pura subjetividade. A origem de todas as causas e efeitos. A segregação entre consciente e inconsciente. A partir daí, o significado de ser alguém ganha a amplitude que extrapola o legalismo e as condições ideais de sobrevivência. Reflete a aspiração de cada indivíduo a partir das acepções de seu mundo e da sua capacidade de abstração, autoconhecimento e de conscientização. Tem também o fator “sorte”. Não sei se essa é a palavra mais adequada para representar este significado. Refiro-me às chances que a vida nos presenteia. Estar no lugar certo, na hora certa, com a pessoa certa. Mesmo que as oportunidades precisem ser bem aproveitadas para gerar frutos, na maioria das vezes, esse empurrãozinho faz toda a diferença.
Portanto, considerando a parte prática da coisa, sentir-se alguém na vida está intrinsecamente ligado ao fator felicidade. Todo mundo carece de se descobrir como pessoa, de produzir algo, de deixar uma marca no mundo. Precisamos saber o que fazer com nossos talentos, aprender a multiplicá-los, a compartilhá-los e crescermos juntos. Enterrá-los no chão e aguardar os brotos não é a saída, independente de onde estivermos e de quem quer que sejamos.
Concordo com aquela corrente de pensadores que defende a idéia de que a natureza do homem é boa, que se corrompe no mundo, devido às diversas frustrações e adversidades as quais são submetidos. E quanto mais caótica e confusa for a atmosfera que circunda a sociedade, mais distantes estaremos da nossa natureza e, consequentemente, de nos descobrirmos como seres em estado de felicidade. Isso mesmo, estado, que quer dizer algo não permanente, transitório, intermitente. Ninguém é plenamente bom, ninguém é totalmente mau e nenhuma pessoa é completamente feliz. Não neste mundo!!!
Acredito que o fato de estar em um local específico do mundo, em busca da minha realização como pessoa, jamais terá sentido nem alcançará a plenitude esperada enquanto eu não conseguir domar meu caos interior, minhas batalhas comigo mesma. Nosso estado interno nos acompanha onde quer que estejamos, seja qual for o nosso destino. A felicidade é uma condição que não está inexoravelmente ligada à maturidade de idade embora o tempo ajude, nem tampouco à abundância de recursos financeiros e patrimoniais. Não vou ser hipócrita a ponto de dizer que dinheiro não vale nada! Mas muitas pessoas são abastadas e mesmo assim tiram suas próprias vidas, sentem-se infelizes, incompletas, não dignas de si mesmas.
No fundo, acredito que, apesar de todas as diferenças de cor, credo e nível intelectual, todos nós temos a necessidade de sermos aceitos e de nos sentirmos acolhidos e amados pelas pessoas com as quais nos relacionamos. Por isso, defendo que o tamanho da nossa felicidade não está condicionado aos objetivos traçados e delineados por nosso estágio de consciência. Está principalmente atrelado ao nível de profundidade com que interagimos com o mundo e com as pessoas. E essa felicidade se perpetua com a mesma capacidade que ampliamos o tesão pela vida e pelas coisas que realizamos a cada dia. As grandes e as pequenas. Essa é a vontade que move o mundo e faz com que o universo conspire a nosso favor. Consigo sentir-me transbordando de emoção ao admirar uma obra de arte que me toca, ao fazer parte de uma bela paisagem, ao acalentar com um forte abraço alguém que amo. Tão simples assim... Quem dera fosse.
Mas além de todas as incertezas, os únicos aspectos que podemos afirmar com segurança em relação à nossa condição de ser humano é que nascemos machos ou fêmeas e que a morte do corpo é inevitável. Diante disso, cabe a cada um de nós usarmos e abusarmos da nossa intuição para aproveitarmos nossos talentos e ampliarmos as nossas chances de barganha com a fortuna da vida. Primeiro, tendo a consciência que os possuímos. Em seguida, aprendendo a identificá-los e, por fim, descobrindo como desenvolvê-los e aprimorá-los. Sem pressa, um passo de cada vez. Sem hora nem data marcada, porque até o último suspiro ainda estaremos em profunda transformação. Com esses ajustes, não fará diferença em que parte do mundo se vive. Porque tudo o que precisarmos para sermos felizes estará dentro de nós e poderá ser acessado a qualquer tempo e em qualquer lugar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Carlos Drummond de Andrade - Pensamentos

RECOMEÇAR
Não importa onde você parou …
em que momento da vida você cansou…
o que importa é que sempre é possível e necessário “Recomeçar”.
Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo…
Sofreu muito nesse período? Foi aprendizado.
Chorou muito? Foi limpeza da alma.
Ficou com raiva das pessoas? Foi para perdoá-las um dia.

Tem tanta gente esperando apenas um sorriso seu para “chegar” perto de você.
Recomeçar…
hoje é um bom dia para começar novos desafios.
Onde você quer chegar?
Ir alto… sonhe alto…
queira o melhor do melhor…
pensando assim trazemos pra nós aquilo que desejamos…
Se pensarmos pequeno coisas pequenas teremos ….
Já se desejarmos fortemente o melhor e principalmente lutarmos pelo melhor, o melhor vai se instalar em nossa vida.
“Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.”

NÃO DEIXE O AMOR PASSAR
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

AS SEM-RAZÕES DO AMOR
Eu te amo porque te amo, não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça e com amor não se paga.
Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.

INCONFESSO DESEJO
Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo

PRECISA-SE DE UM AMIGO
Não precisa ser homem, basta ser humano, ter sentimentos.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem imprescindível, que seja de segunda mão.
Não é preciso que seja puro, ou todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Pode já ter sido enganado ( todos os amigos são enganados).
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar aquelas que não puderam nascer.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que todos levam consigo.
Tem que gostar de poesia, dos pássaros, do por do sol e do canto dos ventos.
E seu principal objetivo de ser o de ser amigo.
Precisa-se de um amigo que faça a vida valer a pena, não porque a vida é bela, mas por já se ter um amigo.
Precisa-se de um amigo que nos bata no ombro, sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo.
Precisa-se de um amigo para ter-se a consciência de que ainda se vive.

“A cada dia que vivo mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

“Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá”.

“Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo, como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa”.
“As coisas que amamos, as pessoas que amamos são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável no limite de nosso poder de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca, dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absoluta numa outra (maior) realidade”.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Eu Levo Seu Coração Comigo (por E.E. Commungs)

















Eu levo seu coração comigo
(eu o levo no meu coração)
Eu nunca estou sem ele
(onde quer que eu vá você irá, minha querida;
e o que é feito só por mim é seu feito, minha amada)
Não temo o destino
(pois você é meu destino, meu encanto)
Não quero o mundo
(pela beleza de você ser meu mundo, minha verdade)
E você é tudo o que a lua sempre representou
E tudo que um sol irá louvar será você
Eis o maior segredo que ninguém conhece
(eis a raiz da raiz e o broto do broto
e o céu do céu de uma árvore chamada vida;
que cresce além do que a alma sonharia ou a mente poderia esconder)
E este é o milagre que mantém as estrelas afastadas
Eu levo seu coração (eu o levo no meu coração)

Pequenos Gestos (autor desconhecido)

É curioso observar como a vida nos oferece resposta aos mais variados questionamentos do cotidiano...
Vejamos:
A mais longa caminhada só é possível passo a passo...
O mais belo livro do mundo foi escrito letra por letra...
Os milênios se sucedem, segundo a segundo...
As mais violentas cachoeiras se formam de pequenas fontes...
A imponência do pinheiro e a beleza do Ipê começaram ambas na simplicidade das sementes...
Não fosse a gota e não haveria chuvas...
O mais singelo ninho se fez de pequenos gravetos e a mais bela construção não se teria efetuado senão a partir do primeiro tijolo...
As imensas dunas se compõem de minúsculos grãos de areia...
Como já refere o adágio popular, nos menores frascos se guardam as melhores fragrâncias...
É quase incrível imaginar que apenas sete notas musicais tenham dado vida à "Ave Maria", de Bach, e à "Aleluia", de Hendel...
O brilhantismo de Einstein e a ternura de Tereza de Calcutá tiveram que estagiar no período fetal e nem mesmo Jesus, expressão maior de Amor, dispensou a fragilidade do berço...
... Assim também o mundo de paz, de harmonia e de amor com que tanto sonhamos só será construído a partir de pequenos gestos de compreensão, solidariedade, respeito, ternura, fraternidade, benevolência, indulgência e perdão, dia a dia...
Ninguém pode mudar o mundo, mas podemos mudar uma pequena parcela dele: esta parcela que chamamos de "Eu".
Não é fácil nem rápido...
Mas vale a pena tentar!