"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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sábado, 5 de junho de 2010

Tema de destaque 6 - A Morte Enfim



Depois de tanto tempo, de tantas dores e sofrimentos, ele se foi. Era uma morte anunciada pelas sucessivas idas e vindas de longos períodos de internação. O corpo já não se suportava, a carne já se desfazia aos poucos e as feições já deterioravam a face que um dia sorriu lindamente. A boca que antes sussurrava galanteios não conseguia mais pedir socorro. E aquele que é símbolo maior da representação da vida, para muitos também é a consumação do fim do corpo. O coração. Uma parada. O descanso. Enfim o adeus. A notícia chega quando a noite finda. O telefone toca e diz: bom dia morte! Ocupamos os últimos assentos no último vôo, para chegar à última hora. Vai em paz. Conta a todos pelo caminho os feitos dos teus 91 anos.
No enterro, as figuras de sempre. Pessoas queridas e outras nem tanto, misturadas àquelas que nem me lembrava mais da existência. Além delas, alguns fantasmas perambulavam pelo cemitério... Homenagens feitas. As últimas despedidas do mundo físico. O toque nas mãos, um beijo no rosto, um carinho a mais, o contato derradeiro. As falas alternavam a emoção à flor da pele, a voz trêmula e espaçada, com a entonação ritmada dos discursos de quem cumpria um ritual de praxe. Uma delas me tocou profundamente. O genro da filha mais velha, meu pai. Sempre tão contido em relação aos sentimentos fez alusão à figura paterna assumida pelo sogro há 32 anos. Um vazio que não se preenche completamente, apenas se consegue amenizar a sensação da ausência. Mais uma olhada, só pra não esquecer a fisionomia de quem dormiria em paz para sempre. Segurei a rosa vermelha com mais força e senti um aperto no coração. Um nó na garganta e uma lágrima salgada na boca.
Os homens da família iniciaram o comboio até o ponto final. Dois homens aguardavam ansiosamente o caixão pra jogar a última pá de terra. A consumação do fim do corpo e a eternização do espírito para os que acreditam. Por um instante saí da cena. Participei apenas como um observador curioso. Segurava uma coroa de flores enquanto os olhos registravam pequenos retratos. Duas viúvas de preto ao meu lado, eram as filhas mais novas. Uma pequena urna de metal comportava os ossos do último falecido da família. Agora um faria companhia ao outro até o próximo evento. Que demore pelo menos dois anos, o tempo necessário pra enterrar um novo corpo. Os dois homens tinham pressa. Já passava da hora marcada. Rapidamente amarraram a corda, encaixaram dois ferros nas laterais do caixão e começaram o movimento para baixo. Finalmente os sete palmos e sobre eles a terra revolvida. As flores por cima simbolizavam a fertilidade que um dia existiu e ao mesmo tempo demarcavam o local, indicavam o endereço. Setor lírios, quadra 28, lote 325. Estava feito. Juntamos alguns trocados e acertamos o trabalho. Aos poucos o aglomerado se desfazia e cada um tomava seguia seu rumo. Em instantes o lugar estava vazio.
Ele se foi e deixou uma grande herança, algo de grande preciosidade. Como todos nós, viveu de erros e acertos. Como não cabe a mim fazer julgamentos deixo vir à mente as lembranças e a saudade do tempo bom que com ele se foi. A mesa pronta, sem nenhum lugar em branco. Apenas o dele estava vago, pronto para ser ocupado. O barulho de todos disputando ao mesmo tempo a fala mais alta, neste agora, é música aos meus ouvidos. Quando ele chega imediatamente sobressai o silêncio emendado pela sua voz ao fundo. Parecia um rei, cheio de pompa, de gostos a serem saciados, de rituais simples que se repetiam há muitos anos. Ainda hoje fico encantada com a capacidade que ele tinha de manter todos ao seu redor. Filhos, noras, genros, netos, agregados, vizinhos, conhecidos e desconhecidos que lhe tinham afeto ou não.
Nunca vou esquecer a saudação carinhosa: minha flor, cada vez mais linda! Dizia isso a todas, era sua marca registrada. Essa é uma das lembranças que ficarão na memória, como alusão a um tempo feliz. Um destaque à vivência de relações intensas cabíveis ao convívio familiar trivial. Quero guardar na memória o avô que cantava de forma sentimental e contava causos. Comia feijoada com prazer e gostava de receber cafuné deitado na rede. Jogava dominó e seguia num andar lento de pisadas fortes. Inquieto, urgente, com sede de viver. Até a última gota. Aprendi o sentido de viver em família, a minha grande família. Raiz das minhas origens nordestinas.
E quando penso em mim, se hoje fosse o dia derradeiro, iria sem bater o pé, sem relutar. Estou de malas prontas. Talvez com alguns esquecimentos, mas com a bagagem essencial à alma. Não que eu queira deixar a história em tempo prematuro. Mas tenho a sensação de me ver por inteiro, de conhecer até os espaços vazios e o lado obscuro. Sinto que não me economizei em nenhum momento sequer. Então ensaio uma primeira escrita pra o meu epitáfio, caso fosse chegada a hora. E se o espaço não comportar tantas palavras, que fique guardada na memória daqueles que me entendem, que em algum momento da vida experimentaram da minha essência, o sentido que quero ressaltar.
Aqui jaz uma mulher feliz. Alguém que se construiu com o tempo, em pequenos pedaços como uma colcha de retalhos. Às vezes andou em passos largos, em outras mais lentamente ou até retornando a algum ponto da trajetória percorrida, para buscar algo que tinha esquecido no caminho. Tinha uma pisada forte e otimista. Não olhava pra trás, nem guardava remorsos. Apenas algumas culpas devido à natureza condicionada pela busca das escolhas perfeitas. Uma falácia!!! Foi embora uma mulher que se permitiu amar perdidamente, sem ter medo de não ser correspondida, de não receber reciprocidade equivalente. Mergulhou fundo ao se aventurar no desconhecido. Sempre cultivou no coração um otimismo ingênuo, inocente, uma certeza de que tudo sempre dá certo no final. Tinha fé na razão de ser de todas as coisas, de todos os fatos, de todas as pessoas. Jaz uma mulher inacabada, esculpida por suas próprias mãos e pelo coração até o último suspiro, o último segundo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Fernando Pessoa - Pensamentos


"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso."

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

"A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar."

"Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias."

"Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer."

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."

"O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar."

"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

"Para ser grande, sê inteiro; nada teu exagera ou exclui; sê todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes; assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive."

"Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura..."

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesqueciveis, coisas inexplicaveis e pessoas incomparaveis."

"Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um."

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Tema de destaque 5 - Linguagem Rebuscada


Como todo ser perfeccionista que se preze, resolvi fazer uma consulta informal a um amigo roteirista com o objetivo de adequar, da melhor maneira possível, aspectos de linguagem, forma e estrutura textual das minhas postagens no blog. O resultado foi uma tragédia, travei completamente. Calma que já vou explicar...
Primeiramente, ele perguntou qual era o público-alvo que eu gostaria de alcançar. De imediato, não tive a resposta, mas no fundo sabia que a proposta inicial do blog, com foco nas reflexões do cotidiano de uma mulher anônima já estavam superadas. Queria fazer algo mais elaborado e profundo, contudo, sem ser anacrônica. Embora os textos postados não apresentem um caráter científico, não consigo usar a linguagem coloquial, nem fugir daquela estrutura tradicional que aprendemos na escola: introdução, desenvolvimento e conclusão!!! Esse era o problema; como me inserir na nova forma de linguagem do mundo cibernético sem perder a minha identidade?
De repente me senti de volta ao começo, sem rumo, com uma estratégia falha, uma idéia furada. Vi o meu projeto minguar até ser esquecido e arquivado naquela gavetinha do inconsciente que todos nós temos para armazenar as empreitadas mirabolantes que nunca saem do pensamento ou aquelas que até pomos em prática, mas que nos vencem pela inércia. Pensei, repensei; tentei escrever na linguagem "internetês" ou "bloguês", sei lá como chamar; e... nada. Bloqueio total. Então, como último apelo e para a minha salvação, entra em ação a minha teimosia nata de taurina. É mais forte do que eu, mesmo quando não quero, continuo remando.
Como não poderia conseguir concretizar algo por causa da minha escrita rebuscada, da minha técnica complicada e perfeitinha de me expressar? Como poderia abandonar um trabalho de 34 anos de dedicação e aprimoramento metodológico; esquecer que consegui com muito custo ultrapassar todos os níveis do jogo da linguagem até o avançado; de falar sobre "n" assuntos com "n" pessoas ao mesmo tempo sem perder um detalhe? Nem pensar; não é pra qualquer um, modéstia à parte!!!
Superados os aspectos tecnicos, eis que surge uma nova idéia: em essência, o mais importante não é a forma adotada para a expressão dos pensamentos, se usamos a mais rasteira ou a norma culta. No fim das contas, o que importa é consumar todo o processo de comunicação; escolher uma linguagem com palavras apropriadas para cada situação; para cada nível de entendimento. Enfim, o objetivo é se fazer entender. Dessa forma, poderia arriscar dizendo que as pessoas mais praticantes do ato de externalizar a reflexão sobre elas mesmas, sobre a vida e sobre as interações com o mundo e com as pessoas, teriam mais chances de alcançar o sucesso. Mas não é bem assim que a coisa funciona, principalmente em se tratando de uma mente feminina, sempre criativa e fértil.
Na maioria das vezes dizemos não querendo dizer sim e ainda esperamos que o outro, isso mesmo, ele, a mente masculina, adivinhe nossas intenções e venha ao nosso encontro montado no cavalo branco nos salvar de nós mesmas. Se já é tão complicado efetivar a comunicação entre dois seres completamente diferentes, com bagagens e vidas distintas, com manifestações diferenciadas da sua essência, por que continuamos a insistir na forma indireta, na necessidade de testar a capacidade do outro de fazer leituras subliminares? Não seria mais fácil ou menos complicado ir direto ao ponto e adotar a franqueza? Eu sinto saudades; não quero que você vá embora; senti ciúmes de você; não gosto de me sentir ignorada; dá pra ser menos seco e racional; eu te amo perdidamente; gostaria que você sentisse o mesmo por mim... Mas será que realmente estamos prontas para ouvir toda a verdade? Essa resposta ainda não descobri...
Talvez nossa mente tenha incorporado um raciocínio dos primórdios de ter a necessidade de dar voltas sobre o mesmo tema ou de provocar adivinhações para termos a confirmação de que realmente somos importantes para alguém. Pensando assim, não seria mais interessante romper com essa tradição e experimentar algo novo? Inovar com coragem para ouvir o que não nos agrada e dar a chance ao outro de um contraditório lícito? A meu ver não paira sobre nós apenas a necessidade de ter certeza absoluta sobre certas coisas, ou de sentir que somos importantes, mas também de confirmar que a razão já nasceu com a gente. Parece que todo o esforço de nos mostrarem que estamos erradas é sempre insuficiente e vencido pela nossa verdade absoluta. Em alguns momentos até desconfiamos estar menos precisas, mas não podemos mostar ao nosso adversário que temos um ponto fraco. Está fora de cogitação. E assim começa a guerra dos sexos!!!
Para aquelas que decidirem se aventurar a baixar a guarda como eu já experimentei, gostaria de registrar a sensação de reconhecer os meus erros e de pedir desculpas; de ouvir o outro e tentar me colocar no lugar dele, mesmo que para ter meus defeitos evidenciados; de revelar os meus verdadeiros sentimentos sem olhar o outro como alguém de quem devo me defender. No primeiro momento é difícil, tenho que confessar, mas depois tudo fica mais leve... Poucas são as situações que nos permitem sentir como é bom falar e argumentar de igual pra igual, desenvolver um diálogo rico de enfrentamentos sadios e críticas construtivas, abrir-se para uma forma completamente diferente de ver e sentir o mundo.
Se o que ouvirmos não coincidir com as nossas expectativas não devemos desistir. É preciso ter paciência e coragem para continuar arriscando. Mergulhando fundo, sem reservas, sem limites, sem certezas, sem adivinhações. É preciso ter a humildade para reconhecer que nem tudo está sob o nosso controle, aliás, quase nada está. E é nisto que reside a vontade de persistir na luta itinerante: tudo pode ser possível, mas nada além de nós mesmos nos pertence de fato.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Tema de destaque 4 - A Dor da Perda



Há algum tempo pensei em escrever sobre este tema, mas a correria do dia a dia é tanta, que falar sobre assuntos como esse acaba ficando em segundo ou até em último lugar. Já é difícil parar e pensar a respeito imagina fazer o registro de forma reflexiva e organizada. Porém, com os altos e baixos da vida, acabei despertando novamente o interesse sobre o assunto.
Quando nos referimos a perdas, automaticamente atribuímos à morte de um ente querido ou de um familiar, o tipo mais relevante ou doloroso. Isso deve ocorrer por causa da visão materialista acerca da vida, que está impregnada na maioria das pessoas. Dá a impressão que ao nascer, é implantado em cada um de nós um chip especial que programa o nosso pensamento, levando-nos a acreditar que a morte é o fim de tudo. O ponto final sem exclamações, às vezes complementado apenas por algumas interrogações. Os desdobramentos disso podem ser percebidos devido à predominância do foco na busca pelas conquistas tangíveis, contábeis, palpáveis. Para o mundo, somos aquilo que possuímos em termos de recursos materiais. Quando findamos a nossa capacidade de produzi-los, eis que chega o momento mais temido e indesejável, mesmo para um idoso de 91 anos que já não levanta mais da cama e mal consegue se manter lúcido e cosciente de si mesmo.
Nesse sentido, posso considerar que, tomando como base o grau de parentesco, ainda não tive grandes perdas. Por outro lado, já presenciei a dor de mães que perderam seus filhos em idades lamentáveis e de forma trágica; de esposas que ficaram viúvas e tiveram uma história de amor interrompida; de maridos que perderam esposa e filho de uma só vez, e com eles, também a esperança; além disso tudo, eu ainda sinto saudades de um grande amigo que cometeu suicídio. Também assisti a uma discussão que acredito não ter resposta: o que doi mais, perder um filho ou o companheiro de uma vida inteira? Não pretendo diminuir nem menosprezar o sofrimento de quem quer que seja, é impossível diferenciar em termos valorativos quanto vale uma vida. Cada um sabe o tamanho da sua dor e cada pessoa tem um papel em nossas vidas, não sendo possível um filho suprir a ausência de um pai, nem mesmo o contrário. Então, cada contexto traz consigo uma realidade diferente.
Mas e se fizéssemos outros tipos de leituras e buscássemos entender as perdas indiretas, aquelas que ficam subliminares: a perda dos sonhos; da fé na vida e nas pessoas; dos sentimentos; da inocência; ou de algo que nunca nos pertenceu, mas que pensamos ter possuído em algum momento da nossa existência? Há também as perdas necessárias, aquelas que nos fazem amadurecer, mas que doem da mesma forma, mesmo quando temos a plena certeza de que são para o nosso bem. Constantemente vivenciamos algumas dessas situações e muitas vezes, não nos damos o direito de viver o luto necessário para que as feridas cicatrizem e possamos nos reerguer após um processo de renovação da alma. Esse luto ao qual me refiro, é o momento que temos para processar os acontecimentos, para fazer com que o entendimento acerca dos acontecimentos possa fluir do coração para a mente, que não aconteça apenas de forma racional. E principalmente, para continuarmos a seguir em frente sem temer o futuro, acreditando que o dia de amanhã representa a chance de realizarmos novas conquistas.
Desde a infância, muitas pessoas são bombardeadas com algumas expressões de efeito que tolhem a naturalidade e as direcionam para o caminho de diminuírem a importância inerente ao sofrimento das perdas consideradas mais amenas: engole o choro; homem que é homem não chora; você já é bem grandinho pra fazer xixi na cama; apague a luz antes de dormir, não precisa ter medo porque não há nenhum monstro debaixo da cama; que bobagem, era apenas um namoradinho da adolescência. Dessa forma, que tipo de pessoa se tornará um indivíduo que desde sempre teve roubado de si o direito de entrar em contato com os seus próprios sentimentos? Se o exercício de cura interior não é estimulado nem praticado desde os anos mais tenros de nossas vidas, como iremos saber como proceder de forma criativa em um momento mais extremo? Como entender os possíveis desdobramentos na cabecinha de uma criança que teve a inocência roubada em decorrência de ter sofrido abusos; ou de outra que teve pais adolescentes, os quais se separaram dez anos depois, deixando como herança referências equivocadas para seus filhos; ou aquela que foi entregue para a adoção e não pode optar por permanecer ao lado de sua mãe biológica?
Mesmo que essa não seja a nossa vontade, cada vez mais, esses eventos fazem parte do nosso cotidiano e, pelo fato de não tratarmos as perdas e os ganhos da vida como uma relação de compensações, inerente a qualquer ser humano, não daremos a importância devida às perdas relacionadas a nós mesmos, a tudo aquilo que já fomos um dia ou até mesmo àquela pessoa que decidimos ser e não persistimos. Não é estranho? Lamentar a perda dos outros de maneira mais intensa do que a desconfiguração da nossa própria alma? A saudade de alguém que se foi ou que simplesmente decidiu não fazer mais parte de nossas vidas doi mesmo, lá no fundo. Contudo, não deveria ser mais forte ou até menos suportável a saudade do indivíduo em relação a ele próprio? Recorrentemente, ficamos tristes ou nos deixamos abater por interpretar uma negativa como uma perda ou por vivenciarmos de forma desmedida as tristezas decorrentes das despedidas. Será que isso não tem a ver com aquela primeira suposição de não aprendermos o exercício salutar de viver o luto? O que mais me impressiona nisso tudo é que independentemente dos tipos de perdas aos quais nos submetemos pelo fato de estarmos vivos, nunca estamos preparados para dizer adeus. Por que é tão difícil nos despedirmos das pessoas, das coisas, do tempo e compreender os eventos como acontecimentos que têm um ciclo de vida próprio. Se alguém tem que ir ou se algumas situações pressupõem uma renovação da nossa forma de pensar e agir, por que não optamos por valorizar os momentos de qualidade já vivenciados ao invés de nos agarrarmos desesperadamente à última centelha de um presente quase passado? Por que é tão difícil nos libertarmos dessas amarras psíquicas que nos prendem a situações confortáveis e também nos impedem de mergulhar sem reservas na entrega de corpo e alma?
Talvez cada um de nós tenha uma resposta diferente. Quem sabe esse comportamento deva estar relacionado ao fato de atribuirmos as perdas a sofrimento e consequentemente, a uma redução do estado de felicidade. Assim falou o poeta: "tristeza não tem fim, felicidade sim"...
Enquanto não saímos da zona nebulosa, sugiro que sigamos em frente, um dia de cada vez, pois as únicas certezas que posso citar para consolar a dor de uma perda são que a fila anda, o sol sempre nasce, o tempo cura todas as feridas e viver, para quem se entrega com fé e otimismo, é na maioria das vezes uma boa surpresa!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Tema de destaque 3 - Mulher de 30 anos

Acabei de comemorar mais um aniversário e, aos 34 anos, pensei em falar da fase Balzaquiana. A obra literária mais famosa ao tratar da mulher de trinta anos e que deu nome a essa expressão foi escrita pelo francês Honoré de Balzac, durante o período de 1829 a 1842; a famosa Mulher de Trinta Anos. O autor trata sobre o amadurecimento da mulher, destacando sua passagem para outra beleza, a da maturidade, para cuja construção, o casamento seria um mal necessário. Em sua fala, aponta que a fisionomia da mulher só começa aos trinta anos. Atualmente, muitas pessoas continuam a defender a idéia de que é nessa idade em que as mulheres chegam ao seu ápice: mais maduras, realistas e vividas, esbanjando sensualidade e realização.
Talvez não sejam todas as mulheres que sentem e vivenciam o momento dessa forma. Cada uma de nós é um universo à parte, diria até que somos uma caixinha de surpresas. No meu caso, percebo esse processo de transformação que não é instantâneo, ocorre em sobre-saltos. Surge naturalmente e de forma progressiva. Por outro lado, a materialização do fenômeno em si, se assemelha um pouco com a manifestaçaõ do big-bang. Bum! Uma explosão!
De repente, dá uma vontade inexplicável de ser mãe, procriar, sentir as mudanças no corpo, simplesmente deixar um legado, uma semente no mundo. Ao mesmo tempo, surgem os questionamentos sobre o casamento e as implicações da vida a dois, a necessidade de conciliar os sonhos profissionais com a maternidade e os cuidados com a casa, transformar o lar em um ninho mais aconchegante e, acima de tudo, sentir-se mulher no sentido ancestral, com a conotação de provedora e de sensualidade.
As Balzaquianas da época da minha avó tinham apenas que ser belas e se portarem como leides para casar e cuidar da prole; as da geração da minha mãe se inseriram mo mercado de trabalho e isso já passou a dar um trabalhão; e quanto a nós??? Devemos ser lindas; maravilhosas; inteligentes; competentes; uma dama na mesa e uma puta na cama; mães presentes; ter a casa impecável; provar que somos boas em tudo aquilo que fazemos; gostar de esportes radicais para dar um ar de moderninha; entender de nutrição para ficar em forma; saber um pouco de psicologia para melhorar as relações familiares; estar sempre depilada; de unhas brilhantes; com o cabelo esvoaçante; perfumadas; hidratadas; com o bumbum durinho e tudo em cima... Ufa!!! Cansei!!! Alguém tem mais sugestões para inserir na lista?
Mas como dar conta de tudo isso no mundo contemporâneo??? Na verdade, acredito que muitas vezes, perdemos tanto tempo dedicadas à busca insana pela concretização de uma mulher fabricada, impossível de existir na vida real e ao mesmo tempo se sentir plena e feliz, que esquecemos de olhar para dentro e entender o chamado do nosso coração. Em alguns instantes, temos a nossa essência descaracterizada e nos portamos como um trator que sai atropelando qualquer um que se atreva a atrapalhar a conquista de algum desses itens "imprescindíveis" à mulher da vida moderna. Em outros, não curtimos com calma os primeiros encontros com os nossos pimpolhos, a amamentação, a troca de fraldas e o ato de dar as primeiras papinhas acaba se tornando um pesadelo. E os homens, coitados... São quase engolidos e transformados em mais um de nossos acessórios. Não que eu queira minimizar as faltas deles, mas às vezes, somos chatas, imediatistas, autoritárias e monopolizamos as atenções; umas ditadoras de saltos. E quando estamos na TPM, nossa, ninguém aguenta!!!
Percebo que herdamos mais atribuições ao invés de termos aprendido a dividi-las. Fico me perguntando se no fundo, os nossos companheiros não compartilham essas responsabilidades por vontade própria ou se somos nós, que fazemos questão de eternizar o mito da super mulher; de provar que somos as melhores; as imbatíveis e garantir que no futuro, uma mente muuuuuito brilhante irá desenvolver uma técnica revolucionária para não precisarmos dos homens nem para procriar. E o que ganhamos com isso: gastrite, câncer de mama, depressão pós-parto, crise de pânico, insônia, filhos sem limites, maridos insatisfeitos e um cansaço físico e mental constante. Ficamos exauridas e até insensíveis, ao ponto de não percebermos as transformações, de não sentirmos as sensações de cada novo acontecimento, de não nos reconhecermos mais como mulheres. Onde fica a tão exaltada sensibilidade, a capacidade de acolhimento, a intuição feminina e tantas outras qualidades adormecidas? Sei que estou sendo meio trágica e retrato a realidade de uma forma extremamente caricata. Mas se continuarmos nesse rumo, o que será das Balzaquianas das próximas décadas? Quais requisitos extras elas deverão cumprir?
Para imaginar o futuro da mulher, como um ser pensante, integral e feliz, é preciso que primeiramente, sejamos capazes de refletir a respeito de alguns questionamentos. Será que era isso mesmo que as nossas precurssoras reivindicavam quando iniciaram as premissas do movimento feminista? Essa soma de fatores, inexoravelmente se reverte em igualdade com os homens? E até que ponto deve se concretizar essa condição de igualdade?
É possível que muitas delas devam ter se comportado segundo essa cartilha para conseguir romper barreiras e mostrar ao mundo que nós somos muito mais do que corpo e um rostinho de boneca. Também somos "mente e alma feminina"... Então, cabe a nós descobrirmos o ponto de equilíbrio e resgatarmos essa beleza mencionada por Balzac. Precisamos sentir a plenitude das nossas conquistas com toda a delicadeza que nos é peculiar.
Jamais seremos iguais aos homens e ainda bem que existem as diferenças!!! São elas que movem o mundo das idéias e conduzem a humanidade a patamares mais elevados. É essa polaridade paradoxal entre masculino e feminino que nos desafia e nos impele a olhar a vida sob perspectivas diferenciadas, mostrando que não existe uma verdade única nem absoluta.
Acredito que nascemos machos ou fêmeas e, no decorrer da vida, de acordo com as nossas experiências e aspirações, conseguimos ou não nos transformar em homens ou mulheres. A condição indispensável para que isso aconteça é nos reportarmos às nossas origens dos primórdios e entrarmos em contato profundo com o nosso eu interior. Só então, concretizaremos a aventura de nos fazermos à imagem e semelhança da mulher de trinta anos idealizada por Balzac. Só assim, nos tornaremos verdadeiramente mulheres maduras, realistas, vividas, esbanjando sensualidade e realização.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um brinde aos amigos!!!


O que seria de nós se não fossem os amigos... Eles fazem parte das nossas melhores lembranças, dos momentos mais engraçados e é claro, ajudam a levantar e sacudir a poeira quando é preciso. Ontem estive com amigos do curso de especialização em gestão pública. Pena que não me despedi de todos em função de uns probleminhas técnicos. Rssssssssssssss!! Foi uma breve comemoração antecipada do meu niver. Estavam lá pessoas muito especiais: o Robert amostrado; a Cléo Zen e minha quase irmã gêmea; O Davi, único artista genuíno do nosso grupo; a Carol, nossa defensora das mulheres; o Carlos, que ainda não consegui encontrar um pseudônimo que o descreva como ele é, mas temos tempo até o final do curso; o Luciano ensaboado; o Allan ex-enrustido que vai ganhar o troféu revelação; a Ilana, uma dama, minha professora particular, que aceitou o desafio de me tornar uma leide; e o Rafa, o simpático de boa, que a Graça queria ter como filho!!!! Será que eu esqueci alguém???? Acho que não. Desculpem ter saído de fininho, mas a minha professora de etiqueta me orientou que pra ser uma leide é preciso saber se retirar do recinto ao descer do salto. Imagina quando a gente literalmente desmorona!!! Rsssssssssss! Foi muito bom estar com vocês e aproveito pra agradecer o carinho de todos. Sei que muitos de nós, além do aprendizado dos conceitos de Gestão Pública, estamos criando laços e aprendendo coisas da vida, que não têm receita nem uma explicação determinística. E quem disse que em mesa de bar só se fala besteira?? Agradeço as dicas para o blog e proponho um brinde aos amigos!!!!!!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tema de destaque 2 - Mulher Macho Sim Senhor!

A inspiração para esse tema, inclusive para o título, brotou das minhas origens nordestinas. Sempre que surgiam situações em que as pessoas fraquejavam ou ficavam em cima do muro, eis que surgia a famosa expressão: tem que ser um cabra muito macho para dar conta disso!!!! Hoje, vejo que muitas mulheres conseguem honrar suas calças de forma mais contundente do que muitos homens que circulam por aí. Daí, fazendo uma analogia acerca dos grandes feitos das mulheres da vida real, de carne e osso, que dão sustentação à sociedade atual com o mito do herói, eu pergunto, como reconhecer uma heroína nos tempos de hoje e qual a relevância disso para a melhoria da vida das pessoas? É verdade, agora fui longe mesmo, mas que tal começar com as heroínas que já conseguiram transpor as barreiras do tempo? Desde muito nova tive um encantamento pela história de Joana d'Arc. Em 1429, seguindo as "vozes" que ouvia já há alguns anos, a jovem Joana atravessa boa parte da França para convencer o rei e assumir a ofensiva na guerra contra os ingleses. Morreu queimada viva dois anos depois, condenada como herética. No século XX virou santa e foi tida como libertária por algumas correntes do feminismo. Percebo que o meu encantamento por ela se traduz na bravura, no comprometimento com uma causa maior que ela mesma, no entendimento de sua razão de ser por meio da crença de que poderia mudar o mundo ao seu redor. Na luta insana de sobreviver a cada batalha, na tentativa de buscar forças e seguir em frente quando já não havia mais a possibilidade de colocar um pé na frente do outro. Destaco a importância que teve a fé na vida e em si mesma, bem como a certeza de sua missão neste mundo. Acredito que esses foram os principais legados em termos de modelos de conduta que poderíamos herdar de uma criatura tão singular. Então, qual a diferença da Joana lutadora, montada a cavalo e com espada em punho, das mulheres de carne e osso que sobrevivem às condições desumanas e precárias que prevalecem num contexto de extrema pobreza e injustiça social? Ou melhor, quais as similaridades com a heroína que virou santa e as mulheres que carregam na mão calejada a enxada para revolver a terra seca e infértil e alimentar dez filhos de um pai que se foi em busca de trabalho na cidade grande e nunca mais voltou? Por que não reconhecer o verdadeiro valor da multi-mulher dos dias de hoje que, além de ter herdado o seu legado tradicional ainda divide atribuições antes apenas assumidas pelos homens? A meu ver, somos todas iguais. No fundo, sabemos a nossa verdadeira vocação, a mensagem do nosso chamado interior. Acontece, que valores como bravura e sacrifício lícito foram transmutados ao longo das gerações e reduzidos ao uso da força por si só e à submissão. Parece que só entende a profundidade desses atributos aquelas mulheres que não vivem, mas apenas sobrevivem... A Maria Maria de Milton Nascimento, fruto de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta. E respondendo a mim mesma, creio que uma verdadeira heroína é reconhecida pelo amor universal, pela capacidade de transformar as dificuldades do cotidiano em desafios a serem vencidos independentemente do seu poder de munição, pelo dom de afinar a alma "de dentro pra fora, de fora pra dentro". É reconhecendo e cultivando a heroína que existe dentro de cada uma de nós que poderemos, verdadeiramente, transformar o mundo em um lugar onde prevaleça a esperança, o otimismo, a entrega, o cuidar, a sutileza do ato de estender a mão a um estranho e ajudá-lo a se reerguer e continuar seguindo em frente. Feliz. Segura. Certa de que cumpriu com o seu papel, mesmo que seja queimada viva na fogueira.