"Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

(Clarice Lispector)

O Beijo

O Beijo
Gustav Klimt (1907)
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Tema de destaque 27 - Eu não sou de ninguém

Sempre vivi uma independência torta e desde criança não cultivava o hábito de andar em grupinhos. Cheguei a cogitar que isso era algum tipo de problema. Não pertencia a nenhum deles especificamente, mas circulava entre todos e ficava bem assim. Na adolescência, isso era mais perceptível e os grupos representavam os diferentes guetos da escola. As patricinhas, os descolados, os “Nerds”, os populares, os esportistas, os riquinhos, os estranhos que ficavam de escanteio...

Percebi que não tinha preferência por circular em nenhum deles. Não que eu não sentisse os anseios que afligem a maioria dos jovens. É que eu me sentia bem em ser livre; ser de todos e ao mesmo tempo não pertencer a ninguém. A minha lealdade estava afinada com o senso de justiça e só. Não era nada calculado. Apenas acontecia assim e só percebi isso depois que o tempo passou. Foi um encaminhamento espontâneo.

Lembro que não gostava da frescura das patricinhas, não concordava com o ar esnobe dos riquinhos, não me atrevia a experimentar metade das coisas que os descolados faziam e me sentia popular com todos com quem me relacionava. Além disso, a criação que recebia em casa me mostrou uma forma consciente de encarar a vida e as pessoas, inclusive de encarar períodos de privações, crises e adversidades.

Agora é possível entender que estávamos sendo preparados para encarar a vida como ela é. Claro que maturidade não dá em árvore e que às vezes é algo muito difícil para um adolescente vivenciar. Dói mesmo! Mas depois que os turbilhões passam, vale a pena pagar o preço. Percebo que na infância era constantemente desafiada a me portar como uma adolescente e quando me tornei adolescente tinha que responder como uma adulta.

Não segui nenhum tipo de doutrina, foi a necessidade mesmo. Vivenciamos muitas dificuldades compartilhadas com toda a família e isso demandava compreensão por parte de todos, até do mais novo. Nada era omitido e todas as responsabilidades diárias eram divididas. A casa era de todos e precisava funcionar independente das queixas e lamentações individuais de cada um de nós.

Aprendi a passar, cozinhar, cuidar de criança, de jardim e de cachorros. E não vejo esse processo como um curso de imersão na formação de Amélias. Encarei o aprendizado como uma experiência indispensável para dar conta de gerenciar uma casa e, consequentemente, de uma cuidar de uma família.

Não sei se essa é a receita ideal para formar indivíduos, mas confesso que hoje em dia valorizo o esforço dos meus pais em terem nos ensinado assim. Também agradeço aos meus irmãos pelo companheirismo de sempre, que ajudou a superar os tempos difíceis e aprender a dividir o peso das responsabilidades com outras pessoas.

Recentemente, percebi-me em uma situação que despertou a curiosidade sobre o assunto do início. Uma colega de trabalho me questionou de forma muito sentida porque eu não havia convidado ela para lanchar! Que cena dramática! Fiquei tocada, é verdade. Tanto que refleti a respeito. O engraçado é que não pensei a respeito da falta do convite, mas sim sobre os aprendizados mais tenros.

Imediatamente lembrei-me das frases recorrentes da minha mãe que repetia a minha avó. Ensinava que não deveria fazer o que todo mundo faz, só por fazer. Dizia que os modismos passavam e que as pessoas deveriam aceitar as outras como elas são e não pela aparência ou posses. Pregava valores cristãos e impregnados do senso comum de cidadania, mostrando que só devemos fazer ao outro aquilo que desejamos para nós. Ela era a dona da verdade em carne e osso.

Cresci impregnada com essa essência. E, certa vez, no calor das discussões sobre política e economia com meu pai, fui taxada de comunista. Foi uma cena muito hilária de se ver. Ele, completamente da direita e eu, com aquele discurso de defesa dos mais fracos e oprimidos. Foi uma comédia. Retruquei com ar de provocação. Disse que se tivesse nascido na época de caça às bruxas ou das lutas comunistas, provavelmente acabaria queimada em praça pública ou brigando por um país mais justo e inclusivo. Atualmente, faço isso de outras formas. 

Ao revelar esses pensamentos compreendo que os ensinamentos, do tipo lugar comum para quem vê de fora, foram essenciais à minha sobrevivência, bem como para que eu deixasse aflorar a minha personalidade assim como ela é.

Enquanto algumas pessoas valorizam o superficial e as relações descartáveis, escolho a vivência mais íntima e profunda. Adoro apreciar o belo e as novidades, mas não desperdiço a experiência disfarçada na figura de um ser idoso. Gosto de desafios e não me recuso a seguir o fluxo da vida, qualquer que seja.

Em situações difíceis, confesso que me dou ao direito de chorar, de ser frágil, de pedir colo e de reconhecer como sou pequenina. Não adianta estar disposta a encarar as adversidades e me largar em uma onda turbulenta sem ter os preparos devidos. Viver assim seria completamente insano e imprudente. E então, ao invés de me fazer fraca, como muitos pensam, eu renovo a minha crença em mim mesma e encontro a força necessária para dar saltos.

Entre um erro e um acerto, um susto e uma boa surpresa, um gosto novo e o saborear do nostálgico, a gente vai descortinando uma vida cheia de emoções e de significados. Situações e eventos que nos moldam e que, se bem aproveitados, fazem a diferença na consumação da realização pessoal ou em família.
Não somos apenas pessoas nascidas para povoar o mundo. Viemos aqui para fazer a diferença e isso significa nos questionarmos constantemente a respeito do que temos feito com os nossos talentos. Enterrá-los ou desenvolvê-los e compartilhá-los; eis a questão?

Gente Humilde - Composição de Garoto, Chico Buarque e Vinícius de Moraes



Tem certos dias

Em que eu penso em minha gente

E sinto assim

Todo o meu peito se apertar

Porque parece

Que acontece de repente

Como um desejo de eu viver

Sem me notar

Igual a tudo

Quando eu passo no subúrbio

Eu muito bem

Vindo de trem de algum lugar

E aí me dá

Como uma inveja dessa gente

Que vai em frente

Sem nem ter com quem contar

São casas simples

Com cadeiras na calçada

E na fachada

Escrito em cima que é um lar

Pela varanda

Flores tristes e baldias

Como a alegria

Que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza

No meu peito

Feito um despeito

De eu não ter como lutar

E eu que não creio

Peço a Deus por minha gente

É gente humilde

Que vontade de chorar

Tema de destaque 26 - Férias em família

Aquela visão mais parecia a própria manifestação do Apocalipse. O sol quente na cabeça, quatro crianças pequenas gritando no pé do ouvido, uma pequena aglomeração de idosos, uma gestante, duas sogras, um sogro, uma cunhada, duas irmãs com os respectivos maridos e o sangue à flor da pele é claro!
Depois de alguns dias convivendo continuamente com 13 membros da mesma família, a chegada a um parque temático da Disney, inteiramente lotado, só poderia se assemelhar a uma cena do fim do mundo. Para completar, um feriado prolongado fazia a multidão se multiplicar por dois, ou até três!
Nunca pensei que esse tipo de passeio desse tanto trabalho. Só pensava em férias, sombra e água fresca, acordar preguiçosa e sem saber qual era o dia da semana. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Os dias começavam já na noite anterior, quando as mochilas das crianças eram cuidadosamente arrumadas. Uma muda de roupa, o lanche nutritivo e o gostoso, água, fralda para o bebê, um brinquedo para distrair nos momentos de tédio, agasalho, documentos e tudo aquilo que uma mãe precavida possa julgar necessário.
Ao amanhecer, o despertador tocava e todos corriam em uma determinada direção. Depois de duas noites, o despertar já não ocorria de imediato e uma preguiça teimava em atrasar a turma. Quando conseguíamos ficar prontos, secávamos o suor do rosto e seguíamos em direção aos carros.
Os três motoristas checavam as baterias dos seus apetrechos de navegação e atualizavam os novos endereços no GPS. Já tínhamos baixado os mapas de toda a região e assim, conseguíamos chegar a qualquer destino. Bastava escolher: rota mais rápida ou mais curta. Eu amo a tecnologia, não sei como estar antenada a todas as novidades que surgem, mas reconheço que a criatividade do ser humano é capaz de mover montanhas.
A chegada ao parque era sempre uma alegria. Foto daqui, foto dali e muitos sorrisos. De todas as caras alegres que cruzavam o meu olhar, preferia admirar o encantamento escancarado nos olhos virgens das crianças que só conheciam aquela realidade pela televisão. Era uma expressão mais linda que a outra.
Terminado o romantismo, vamos à realidade. Imaginem só a loucura de reunir esse povo todo naquela imensidão! Ai, ai, ai... Era esquecimento disso ou daquilo. Quando o pé de um parava de doer o grupo esperava o outro ir fazer xixi. Perde daqui, acha dali. E a fome. Nossa, quando essa aí chegava era melhor ninguém se olhar muito porque saía faísca. Só perdia para a espera incansável de 90 minutos na fila de uma atração. E no fim dor nas costas, nos pés, na cabeça, nas juntas...
E assim foi. Os dias passaram, a semana chegou ao último ponto e mesmo com todas as verdades que foram ditas em tom de irritação, o que ficou de lembrança foi o sentimento de congregação. O aprendizado foi para todos. As crianças observaram as limitações com os idosos que, por sua vez, lembraram o tempo em que cuidavam dos seus pequenos.
Mesmo com todas as piadas que contam sobre os problemas que surgem quando se vive em família, algumas até em tom de ironia e sarcasmo, só posso dizer que para mim predomina a alegria de compartilhar meus momentos felizes e infelizes com pessoas muito queridas. E quanto maior ela for maior, sabemos que maior será o barulho, os atropelos, as confusões e até a efervescência da falta de paciência. Mas o que fica desses tempos de turbulência boa não tem preço.
Quando penso na minha família, a primeira coisa que se destaca é a nostalgia dos tempos de infância na casa da minha avó. Foi uma época tão boa que não dá para esquecer nem fingir que não aconteceu. Só de sentir alguns cheiros e aromas, lembro o sabor da comida caseira feita na hora e servida para todos numa mesa sem fim.
Outra boa lembrança é sobre o convívio com meus primos. Alternávamos as férias entre uma casa e outra e ficávamos sempre juntos. Passávamos horas jogando “War”, brincando na rua ou na praia quase deserta. Foram bons tempos aqueles. Tão bons que deixaram o sabor de quero mais, o desejo de se reencontrar para mais um papo e saber como a vida anda.
Só sabe a falta que a família faz quem já perdeu a sua ou quem nunca viveu sob o teto de uma. Existem exceções para tudo, mas sobre esse assunto, creio que no fundo, todo mundo gosta de saber que tem um ninho, um porto seguro entre os seus para correr nos momentos de crise e para celebrar as alegrias.
Imagino que esse tenha sido o sucesso da nossa viagem em família. Deixamos os laços de respeito e os sentimentos de bem querer se sobreporem aos desagastes que todo ser humano enfrenta no dia a dia. Agora só preciso de férias dessas férias para voltar ao gás de sempre.

Amor de Índio - Composição de Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Tudo que move é sagrado


E remove as montanhas

Com todo o cuidado, meu amor

Enquanto a chama arder

Todo dia te ver passar

Tudo viver a teu lado

Com arco da promessa

Do azul pintado, pra durar



Abelha fazendo o mel

Vale o tempo que não voou

A estrela caiu do céu

O pedido que se pensou

O destino que se cumpriu

De sentir seu calor

E ser todo

Todo dia hei de viver

Para ser o que for

E ser tudo

Sim, todo amor é sagrado

E o fruto do trabalho

É mais que sagrado, meu amor

A massa que faz o pão

Vale a luz do teu suor

Lembra que o sono é sagrado

E alimenta de horizontes

O tempo acordado, de viver

No inverno te proteger, no verão sair pra pescar

No outono te conheçer, primavera poder gostar

No estio me derreter

Pra na chuva dançar e andar junto

O destino que se cumpriu

De sentir seu calor e ser tudo

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Aniversário de um ano do blog

Há um ano lancei-me na aventura de criar um blog para falar sobre o universo feminino. Era um tempo de mudanças, algumas delas de natureza emocional e outras em função do próprio fluxo da vida. Na época, lancei o desafio de explorar a mente feminina em um ano. Passado esse período, não cheguei nem perto de esgotar os diversos assuntos que surgem na mente de uma mulher.  
Só posso dizer que, apesar de todos os atropelos e dificuldade em manter um fluxo mais constante de postagens, a experiência vem sendo altamente positiva e, em função disso, pretendo continuar com o projeto. Agora com uma diferença: nada de prazos!!!
Seguirei meu coração na medida do possível e de acordo com as inspirações com as quais eu me deparar no decorrer do caminho. Tantas novidades aconteceram e a mais importante delas foi a vinda de mais um filho. Agora serei mãe de dois, Carlos Rodrigo de 3 anos e Beatriz que está no ninho.
Espero que meus escritos tenham servido para todos que leram, no sentido de desmistificar as lendas que giram em torno das mulheres. Somos complicadas, mas também perfeitinhas! Doidas, mas também santas.  E acima de qualquer categoria somos gente.
Um aspecto bastante positivo que vem contribuindo para o meu crescimento é a percepção de que quando escrevo sabendo que outras pessoas irão ter acesso aos meus pensamentos, busco me esforçar mais para ser inteligível. Com isso, e ao colocar os sentimentos no papel, acabo entendendo melhor o que acontece comigo.
Espero que as pessoas que convivem diretamente comigo também tenham sentido alguma diferença positiva como resultado da influência do blog. Faz parte da minha cultura de aprendizado crer que os ganhos se tornam mais concretos quando ocorrem de forma conjunta. Não faria muita diferença se os benefícios se revertessem apenas para a minha pessoa.
Agradeço aos amigos que se tornaram seguidores para darem força ao blog; aos curiosos e desconhecidos que também se tornaram seguidores por sentirem algum tipo de afinidade com o assunto e a cada experiência que deu margem à minha imaginação feminina.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Tema de destaque 25 - Vida e a força que liberta

Ao atravessar as etapas da vida, cada pessoa vai moldando sua forma personalizada de descobrir o mundo e internalizar o aprendizado de cada fase marcante. Por isso, é comum dizer que não há receitas que sirvam a todos. Cada ser é um mundo à parte e cada parte tem uma infinidade de pedaços oriundos de um conhecimento ainda não processado. Além disso, tem um pequeno detalhe que a maioria de nós se esquece de considerar no momento de se auto afirmar e querer criar asas: as nossas amarras.

Desde a infância, somos influenciados pelos hábitos familiares, pelas convenções sociais, pela orientação sexual, enfim, por uma infinidade de valores aceitos e pregados pelo mundo, mas que nem sempre se afinam com o que somos por dentro. Assim, surgem os primeiros choques, necessários ao nosso desenvolvimento, contudo, marcantes em termos de transformação.

Além desses valores, destacam-se as projeções, os sonhos não vividos de nossos progenitores. Aquela coisa da mãe que sonha com uma filha bailarina ou o pai que aguarda um pequeno herdeiro para dar seguimento aos negócios da família. É uma bagagem que nos acompanha antes mesmo de existirmos. Um lugar comum... Nem tanto.

É no imenso aglomerado de iguais que nasce a diferença. Alguém que ousou gritar que não crê no mundinho milimetricamente calculado e vendido como bem sucedido. Alguém que se fez liberto e menos contido e decidiu ser diferente para ser autêntico, alguém que ficou sufocado e teve a necessidade de respirar um ar menos impregnado de hipocrisia e mais maleável à variabilidade do tempo.

Não prego que o ideal seja se encaixar acima da lei, mas ficar inteiramente submerso em um mar de regramentos dogmáticos também não é nada saudável. Encontrar o equilíbrio que confere a liberdade criativa é o desafio da vez. Essa busca perpassa outro tipo de encontro: o do eu interior.

O ponto chave da vida de cada ser humano é aquele onde se exprime um mínimo de autoconhecimento para que seja possível olhar o mundo e saber a qual lugar pertence, quem ele é e o que lhe faz feliz. Não existe uma data marcada para que isso aconteça, porém, muitas pessoas nunca se permitem embarcar nessa viagem e acabam passando pela vida sem um envolvimento profundo. E no final de tudo tentam correr para recuperar o tempo desperdiçado.

A boa notícia é que, embora existam forças que nos amarram as pernas, deixam os braços atados, calam a voz e cegam os olhos, existem aquelas que nos libertam. O amor é uma delas. Talvez a mais intensa de todas. Em se tratando do amor romântico, é possível dizer que esse sentimento se expressa por ciclos e se renova a cada fase vindoura, a cada nova experiência.

No início, ainda impregnados pelo cheiro da paixão, os dois seres extravasam energia. É uma fonte da mais pura criatividade que, intrinsecamente, dá asas. São movidos pela força do eros interior e acabam se tornando do tamanho do mundo. E fazendo um parêntese, acredito que a maior capacidade do ser que ama é persistir e ser tenaz para lutar contra os obstáculos do caminho e a favor do bem comum de ambos.

Quando o estágio inicial é ultrapassado e são formados laços de uma ligação construtiva e embasada no companheirismo, surge uma nova fase do amor. É o tão famoso amor que move montanhas e atravessa o tempo. Que faz com que o outro se torne uma complementação da nossa essência sem necessariamente integrar nossa estrutura. É uma parte que nos completa pelo fato de funcionar como um espelho que inspira conhecimento e principalmente por despertar em nós o desejo de ser alguém melhor.

Afinal, quando estamos ao lado de quem nos faz bem, mesmo que indiretamente, esperamos cultivar nossos talentos para oferecermos algo à altura do que recebemos. E assim, o relacionamento a dois se concretiza como uma jornada da alma ao mesmo tempo individual e acompanhada. É a maneira mais rica de se descobrir o mundo e a si mesmo.

Então, que venha o amor. Quente, frio ou morno. Mas que não seja fatal. Que habite em nossos corações a vontade constante de compartilhar a vida, de dividir responsabilidades e de somar sonhos. Que sejamos o instrumento revigorante da esperança e do otimismo, a prova viva de que o mundo pode e deve ser um lugar onde ser feliz é o caminho a ser percorrido por todos, destacando, contudo, que ser feliz sozinho não tem muita graça.

Que venha a falta de vergonha; um pouco comedida e não muito desvairada. Que seja do tamanho da necessidade que limita o rompimento dos medos e das amarras. Que liberte os receios e promova a voz de quem entende do que está falando: o coração. Espero que com toda essa revolução de sentimentos sejamos um tanto menos mecânicos e um pouco mais sentimentais.

Que impere a massa de seres confiantes. Aqueles que apostam na intuição que irradia do fundo da alma, que canta o percurso exato de pisar e guiar os pés. Apenas não nos esqueçamos da voz que nos suplica para resistir aos atropelos e seguir em frente sempre; ela é a mesma que nos sussurra que devemos ter calma, indulgência e vigilância constante.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Tema de destaque 24 - A Deusa da Fertilidade

Embora as mulheres tenham alcançado grandes conquistas nos últimos tempos, em se tratando de fertilidade, quanto mais o tempo passa, mais elas têm ficado vulneráveis e até reféns. A geração mamãe anos 2000 não chega nem perto das parideiras de antigamente. Não estou estabelecendo nenhum tipo de disputa, tampouco diminuindo as potencialidades das fêmeas do século vinte e um, apenas destaco um fato que já ganhou proporções descabidas para nossa racionalidade feminina.

Muitas repetem o mesmo ritual durante meses e nada. São apelidadas de as tentantes da vez. Calculam o melhor dia, fazem o reprodutor engrossar o caldo, consumam o ato e imediatamente deitam de pernas pra cima por pelo menos cinco minutos... É um malabarismo só. Pense na cena! Parece engraçado, mas depois de um tempo acaba se tornando um pesadelo. Se sentem prazer, nem se lembram. E muitas vezes o resultado não é satisfatório. Há poucas décadas, o que era visto como a coisa mais natural para a mulher, desde que o mundo é mundo, hoje é encarado por muitas como um sofrimento intenso.

Para completar a caricatura, aos 35 anos, a gestante é enquadrada na literatura médica como mãe idosa. Pura sacanagem. Será que isso foi ideia de um homem? As que se aventuram ao desafio de conceber um filho aos 40 apelam ao divino e rezam diariamente para ter seus bebês saudáveis. Logo agora que são compartilhados tantos segredos de longevidade e vitalidade. Aqueles truquezinhos que prolongam os anos a fio, mas não são capazes de prolongar as capacidades reprodutivas, nem de conter a deterioração do cerne da vida: o óvulo.

Nisso, temos que dar o braço a torcer à natureza masculina. Enquanto nós mulheres nascemos com todos os óvulos que nosso organismo é capaz de produzir na nossa existência, ficando à mercê da data de validade e do seu grau de maturação para fecundar, os homens, são bem safos. Podem produzir suas sementes a qualquer hora e em qualquer tempo. A idade até limita a qualidade inicial dos espermatozóides da adolescência, que podem nascer descabeçados ou numa contagem inferior, mas nada tão dramático.

E agora? O que devemos fazer? De um lado enfrentamos os desafios de nos firmarmos no mercado de trabalho, de lutarmos pelos nossos sonhos, de encararmos com unhas e dentes um mundo competitivo e individualista, de construirmos o futuro que acreditamos merecer. De outro, damos de cara com o reloginho da natureza que insiste em lembrar-nos que o tempo está passando e que não somos mais uma menina. E nesse vai e vem, quando entra em cena a deusa da fertilidade que supostamente habita cada uma de nós?

Muita calma nessa hora. Para tudo dá-se um jeito. É claro que é possível conciliar tantas frentes de trabalho ao mesmo tempo, mas para ter sucesso, precisamos reconhecer que precisamos de ajuda. Essa história de bancar a super mulher e achar que é auto-suficiente não está com nada. A natureza é tão sábia que já organizou o processo pra ser vivido a dois desde o início. É só uma dica pra ver se a gente entende o recado.

Além disso, precisamos estar atentas ao outro relógio. Aquele que suplica desesperadamente para que sejamos menos precavidas, para darmos aquela escorregadinha básica, para que tenhamos a coragem de arriscar perder o controle sobre um futuro que nunca nos pertenceu. Ser mãe não é algo do outro mundo. E o manual executivo e operativo já vem guardadinho, só precisa ser acessado em caso de dúvidas. E para o nosso bem, se tivermos a postura otimista, iremos perceber que o universo passa a conspirar a nosso favor para que tudo dê certo.

É claro que gerar um filho é uma bênção, a materialização de um milagre da natureza. Mas o estilo de vida contemporâneo que prega a igualdade entre homens e mulheres esqueceu-se de considerar um pequeno detalhe: homens e mulheres são diferentes. Não me refiro a potenciais nem a capacidades de fazer as coisas acontecerem. Refiro-me aos ciclos da vida, à atuação dos hormônios nas entranhas, às conformações do corpo e da mente. Quem vai negar que as limitações são reais, independentemente de juízo de valor ou de orientação politicamente correta?

Pode ser que eu tenha um modo de ver essa situação às antigas, mas acho que essa é uma das formas que a vida encontrou de fazer imperar a lei da parceria, mesmo em tempos de cada um por si e Deus por todos. É como se a vida requeresse a união de duas almas para se fazer florescer. Enquanto um gera e pari, o outro ser segura as pontas e garante as mínimas condições de sobrevivência. Enquanto um alimenta o fruto do seu próprio corpo, o outro se dispõem a ser companheiro e indulgente. Quando um não consegue mais escutar o choro ininterrupto, o outro se prontifica a acalentar. Mesmo que não permaneçam juntos depois, ao menos tiveram a experiência de compartilhar esse acontecimento desde o princípio.

O ato de gerar uma criança deve ser encarado como uma escolha madura que envolve grandes responsabilidades. Para muitas mulheres, funciona como um acontecimento mágico e inigualável que de fato as tornam especiais e muda suas vidas para sempre. Para outras, é encarado como mais um ciclo de mudanças, tão natural como a chuva que cai do céu, encharca o chão para alimentar os córregos e volta a formar nuvens.

De todas as suposições e interrogações que fecundam nossas mentes criativas, prefiro dar destaque a apenas uma delas. Para as pessoas que acreditam que ter filhos só traz preocupações e prejuízos, sinto dizer, mas estão completamente equivocadas. Essas criaturinhas nascem com o dom de nos tirar do sério, mas em alguns momentos especiais despertam em nós a grandiosidade do amor que somos capazes de sentir e exalar. Ajudam-nos a experimentar a vida em sua manifestação mais verdadeira e sublime: amar incondicionalmente sem ter a garantia de receber algo em troca.